Título: País continuará líder do juro com Selic em 13,25%
Autor: Modé, Leandro
Fonte: O Estado de São Paulo, 29/11/2006, Economia, p. B5
O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) encerra hoje a sua última reunião do primeiro mandato do governo Lula numa situação bem mais confortável do que a que vigorava no primeiro encontro realizado na gestão do petista, em 22 de janeiro de 2003. A inflação projetada para o ano que vem está abaixo da meta e a taxa básica de juros (Selic), em termos nominais, é a menor da história do País.
Em compensação, o juro real (que considera a Selic descontada da inflação projetada para os próximos 12 meses) ainda é o mais elevado do planeta. Mesmo que o Copom reduza a Selic em 0,50 ponto porcentual hoje - aposta majoritária do mercado -, o juro real brasileiro será de 8,7% ao ano.
No início de 2003, as projeções do mercado apontavam uma alta de 12,3% para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) no acumulado do ano. Hoje, a estimativa dos especialistas para 2007 é três vezes menor: 4,1%. O IPCA é o índice utilizado pelo governo para balizar o sistema de metas de inflação - atualmente, a meta é de 4,5%, com margem de erro de dois pontos porcentuais para cima ou para baixo.
Para analistas, o sucesso do BC comandado por Henrique Meirelles no combate à inflação é inegável. 'O BC conseguiu organizar as expectativas de inflação e colocou-a abaixo da meta', diz Marcelo Salomon, economista-chefe do Unibanco.
'O BC obteve conquistas importantes ao longo dos últimos quatro anos. Quando assumiu, havia uma crise de confiança provocada pela proximidade da eleição presidencial, que fez subir o dólar e, conseqüentemente, a inflação', completa Alexandre Bassoli, economista-chefe do HSBC.
Outros especialistas não negam a importância do BC no processo de desinflação do País, mas argumentam que o custo dessa política foi elevado demais. 'O BC exagerou a dose na definição dos juros, o que reduziu o crescimento nos últimos anos', critica Jason Freitas Vieira, economista-chefe da Uptrend Consultoria Econômica. 'A inflação não precisa ficar abaixo da meta.'
Para Salomon, o juro real no Brasil é alto por questões estruturais e não por causa dos profissionais que estão no BC. 'O juro real é o espelho do crescimento potencial do País', observa. 'Se o BC sanciona um crescimento maior que esse potencial, acelera a inflação.' Nos cálculos dele, o Brasil pode crescer entre 3% e 3,5% ao ano sem riscos inflacionários.
Os analistas acreditam que o BC manterá a mesma linha de atuação no segundo mandato de Lula, independentemente de eventuais mudanças na diretoria (ou até na presidência) da instituição. 'O regime de metas tem se mostrado vitorioso e permite a redução dos juros e a expansão da massa salarial', afirma Bassoli. 'A perseguição da meta e a obstinação do BC em manter a estabilidade permanecerão.'