Título: O governo como inimigo
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Fonte: O Estado de São Paulo, 11/09/2006, Notas e Informações, p. A3
"A indústria têxtil pede socorro", lia-se em uma faixa exibida durante a manifestação realizada na cidade pernambucana de Paulista na terça-feira, para mostrar a grave situação em que se encontra esse ramo industrial. Aquela era uma das 20 manifestações em todo o País, inclusive em São Paulo, organizadas com esse objetivo e de maneira conjunta por empresas e trabalhadores.
Talvez pareça exageradamente dramática a frase exibida pelos manifestantes de Paulista, mas bastam alguns números para se concluir que o apelo é procedente. De acordo com o superintendente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), Fernando Pimentel, nos últimos quatro anos o setor demitiu 260 mil trabalhadores. Nos primeiros oito meses deste ano, enquanto as importações brasileiras de produtos têxteis cresceram 38,8%, as exportações diminuíram 1,1%. O resultado é que, de um superávit comercial de US$ 255,4 milhões no período janeiro-agosto de 2005, a balança comercial registra, no mesmo período de 2006, um déficit de US$ 72,4 milhões. Nesse ritmo, temem as empresas, o resultado do ano poderá ser um saldo negativo de US$ 200 milhões a US$ 300 milhões.
A indústria definha. A produção de tecidos planos de fibras artificiais e sintéticas em Americana, pólo responsável por 85% da produção brasileira, chegou a 160 milhões de metros lineares por mês em 2004, mas a média deste ano está em 130 milhões.
Se se levar em conta que, nos últimos dez anos, as empresas investiram US$ 10 bilhões para poder enfrentar a crescente concorrência externa e evitar a obsolescência, e mesmo assim vendem cada vez menos no mercado interno e suas exportações diminuem, pode-se ter uma idéia mais precisa das dimensões da crise.
"Somos competitivos até a porta das fábricas e não queremos esmola, apenas equilíbrio na competição com outros países", diz o dirigente da Abit.
São vários os problemas que a indústria têxtil enfrenta. A valorização do real reduz sua competitividade, os juros altos impedem maiores investimentos, a entrada de produtos da China é impulsionada não apenas pelos baixos custos de produção naquele país, mas também por práticas ilegais, como subfaturamento ou contrabando puro e simples.
Além de problemas que afetam todos os setores - infra-estrutura inadequada, carga tributária excessiva, juros muito altos -, o setor têxtil enfrenta a completa ausência de ação governamental para evitar a perda de espaço nos mercados externos para produtores de outros países, como os da América Central e da China.
Por um equívoco da política de comércio exterior do governo Lula, o Brasil concentrou esforços na busca de maior entendimento com países do Hemisfério Sul e ignorou os principais mercados de produtos brasileiros, que são os países industrializados. A concorrência externa se aproveitou disso.
O governo Lula comemorou o fracasso do projeto da Alca, que facilitaria aos países latino-americanos a entrada no maior mercado do planeta. Para evitar que o fracasso da Alca os impedisse de ter maior acesso àquele mercado, outros países da região negociaram acordos bilaterais com os EUA. O Brasil não fez isso.
Para as empresas que podem, a solução é investir no exterior. Três das mais importantes indústrias do setor planejam investir no exterior, nos próximos 12 meses, US$ 500 milhões. Seu objetivo é instalar fábricas na América Latina - em países onde a carga tributária é metade da brasileira e a mão-de-obra é mais barata - de onde poderão ter acesso mais fácil aos dois principais mercados do mundo, os EUA e a União Européia.
O setor têxtil é um dos que mais perdem com a política equivocada do governo. Para a indústria têxtil, é fundamental que o Brasil busque acordos de acesso aos principais mercados, pois, como observou um empresário há pouco, enquanto o País fica cada vez mais isolado, os concorrentes externos vão tomando o mercado que era dos produtos brasileiros. Falta o apoio do governo a um importante segmento gerador de divisas e empregos.