Título: França terá 2 mil soldados no Líbano
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Fonte: O Estado de São Paulo, 25/08/2006, Internacional, p. A16
Depois de ouvir muitas críticas de países aliados, o governo francês comunicou ontem o aumento de sua contribuição para o contingente da ONU que patrulhará o sul do Líbano, em conjunto com o Exército libanês. O presidente Jacques Chirac anunciou, num pronunciamento na TV, que a França enviará mais 2 batalhões, totalizando 1.600 soldados para a força de paz, a Finul. Com isso, eleva para 2 mil homens sua contribuição à expansão da Finul - criada em 1978 para observar a fronteira do Líbano e Israel.
A França já mantém 200 militares na Finul e havia oferecido inicialmente apenas mais 200, o que causou desapontamento entre os membros do Conselho de Segurança da ONU e seus parceiros na União Européia (UE).
Ontem Chirac disse que a França tem interesse em continuar liderando a força de paz e descreveu o cessar-fogo entre Israel e o grupo xiita libanês Hezbollah como "muito frágil". "A França está pronta, se as Nações Unidas desejarem, para continuar comandando esta força", declarou. Chirac afirmou ainda que o país decidiu enviar mais tropas depois de obter garantias da ONU de que os soldados poderão defender-se plenamente se ficarem sob ataque e também poderão usar a força militar para proteger civis.
Tanto a França como outras nações dispostas a integrar a força da ONU estavam preocupadas com as atribuições e poderes das tropas, pois temiam que fossem incumbidas de desarmar a milícia do Hezbollah. Essa função parece descartada. Ainda não está claro, contudo, o que a Finul fará se o grupo voltar a disparar foguetes em Israel.
Quando o Conselho de Segurança aprovou no dia 11 a resolução 1701, com as premissas para o cessar-fogo, a expectativa era que a França continuasse na chefia da missão, para a qual está designada até fevereiro. A resolução pôs fim a 34 dias de conflito, que deixou mais de 1.300 mortos, na grande maioria civis libaneses.
O próprio governo francês havia deixado claro seu interesse em continuar no comando. No entanto, como a França oferecera apenas mais 200 soldados, a Itália - país que fez a maior contribuição, de 2 mil a 3 mil soldados - anunciou na semana passada sua disposição de comandar. A decisão caberá ao secretário-geral da ONU, Kofi Annan, que hoje tomará parte da reunião de chanceleres da UE, em Bruxelas, para discutir as contribuições do bloco. A pressão sobre a UE cresceu porque Israel rejeita a participação de países com os quais não mantém relações diplomáticas, como Malásia, Bangladesh e Indonésia, que ofereceram tropas. Ontem o primeiro-ministro italiano, Romano Prodi, comentou que o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, lhe disse por telefone que vê como "positiva" a oferta da Itália de liderar a força. Mas o governo da Itália tem dito que sua oferta de tropas não será afetada por uma decisão da ONU de entregar o comando a outro país. "Isto é parte de uma aliança forte e próxima entre a Itália e a França. Vamos trabalhar juntos no Líbano, no interesse da paz", disse Prodi, depois de receber em Roma a chanceler de Israel, Tzipi Livni.
A ministra israelense fez novo chamado para que a comunidade internacional envie o mais rápido possível a força de paz. O objetivo da ONU é mandar 3.500 homens este mês.
Além da dificuldade de arregimentar os 13 mil soldados, outro complicador é a ameaça da Síria de fechar sua fronteira com o Líbano caso a Finul assuma posições no lado libanês da divisa. Israel exige que a Finul patrulhe essa fronteira, por onde o Hezbollah supostamente recebe armas da Síria e o Irã. A resolução 1.701 nada fala sobre isso.