Título: 'Nem um milímetro de recuo na nacionalização'
Autor: Marin, Denise Chrispim
Fonte: O Estado de São Paulo, 25/08/2006, Economia, p. B7
Com mais classe e menos ira que Evo Morales, o vice-presidente da Bolívia, Álvaro García Linera, declarou ontem que não se surpreendeu com a decisão do Senado de seu país de aprovar uma moção de censura contra o ministro de Hidrocarbonetos, Andrés Solíz Rada, e pedir sua demissão.
Em entrevista no Itamaraty, Linera ignorou as razões alegadas pelos parlamentares - as denúncias de corrupção na Yacimientos Petrolíferos Fiscales de Bolívia (YPFB), estatal que responde a Rada - e afirmou que La Paz não recuará "um milímetro" no processo de nacionalização do gás e do petróleo.
"Essa decisão foi só do Senado, onde não temos maioria, e não do Congresso. O Senado é o último reduto das forças conservadoras da Bolívia. É a resistência do velho regime neoliberal, que privatizou tudo no país."
Anteontem, após saber da decisão do Senado, Evo qualificou os senadores bolivianos de "vendedores da pátria, traidores do povo, assassinos" e os acusou de "servir às multinacionais". Linera preferiu um vocabulário mais apropriado à sua condição de matemático e sociólogo e, de certa forma, uma vez mais contribuiu para "consertar" os impulsos de seu presidente.
Reconhecido por seu trabalho acadêmico e posição marxista, Linera é tido como o ideólogo do governo Evo e está mais à esquerda que o líder indígena.
Em palestra no Itamaraty, ele disse que o objetivo do governo Evo é "construir uma sociedade pós-neoliberal" e intensificar as trocas e a solidariedade com os países vizinhos, sobretudo a Argentina e o Brasil. Conforme explicou, a alternativa adotada foi a de construir um "governo dos movimentos sociais", com maior participação do Estado na economia e com a reconstrução dos pactos e alianças a partir de uma Assembléia Constituinte, empossada no início de agosto.
"É um erro da ilusão liberal crer em livre mercado quando não há nem sequer um mercado interno na Bolívia. A renda per capita é a mesma há 20 anos, US$ 850 anuais, e temos 40% da população abaixo da linha de pobreza", disse.