Título: Vice boliviano vê Lula e negociações serão retomadas
Autor: Marin, Denise Chrispim
Fonte: O Estado de São Paulo, 25/08/2006, Economia, p. B7
O vice-presidente da Bolívia, Álvaro García Linera, cumpriu ontem sua missão de "eliminar os ruídos" nas relações com o Brasil, acirrados pelo teor do decreto de nacionalização do setor de gás e petróleo e por declarações públicas do presidente Evo Morales. Após duas reuniões no Palácio do Planalto, na manhã de ontem, García Linera concordou com a retomada das negociações entre a estatal YPFB e a Petrobrás no início de setembro e acentuou que deverão ser concluídas no prazo previsto, em novembro deste ano.
No entanto, Linera ressalvou que as conversas não mais se restringirão à questão do reajuste do preço do gás exportado ao Brasil. Com o aval do governo Luiz Inácio Lula da Silva, a negociação abarcará também a adequação das refinarias da Petrobrás na Bolívia às regras de nacionalização e novos investimentos dos brasileiros no setor energético do país vizinho.
No seu ímpeto de acabar com o conflito bilateral, o vice boliviano contradisse recentes afirmações de companheiros de governo e destacou que a Petrobrás é uma "sócia estratégica" da Bolívia. Acentuou ainda que La Paz quer a presença contínua da companhia brasileira no país.
O vice-presidente também informou às autoridades brasileiras que, a partir deste momento, passará a monitorar semanalmente o andamento das negociações bilaterais, que deixarão de ser conduzidas exclusivamente pelo ministro de Hidrocarbonetos, Andrés Solíz Rada, supostamente envolvido em denúncias de corrupção. Os ministros do Planejamento, Carlos Villegas, da Fazenda, Luis Alberto Arce Catacora, e da Presidência, Juan Ramón Quintana, estarão ao lado de Solíz Rada nessas conversas.
"Há vontade dos dois governos de trabalhar de maneira franca, direta, cara a cara", afirmou à imprensa, no Itamaraty. "Vamos pôr toda a nossa energia para alcançar um grande acordo energético com a Petrobrás." Linera enfrentou duas rodadas de conversas. Na primeira, reuniu-se com os ministros Dilma Rousseff, da Casa Civil, Silas Rondeau, de Minas e Energia, e com o presidente da Petrobrás, José Sérgio Gabrielli.
Nesse momento, anunciou a disposição de La Paz de retomar e dar mais dinamismo às negociações. Na segunda etapa, estritamente política, conversou com o presidente Lula, que estava acompanhado pelo chanceler Celso Amorim e pelo assessor da Presidência para Assuntos Internacionais, Marco Aurélio Garcia.
Apesar de o governo boliviano amargar uma situação ainda mais débil neste momento, com seu principal negociador no centro de denúncias de corrupção e a impossibilidade financeira para estruturar a YPFB, Linera conseguiu pelo menos um recuo do governo brasileiro. À imprensa, ele explicou que essa negociação técnica será conduzida pelos dirigentes da Petrobrás e da YPFB, sem, no entanto, afastar a possibilidade de interferências políticas de Brasília e de La Paz no resultado da negociação. Marco Aurélio Garcia concordou que será impossível dissociar as questões técnicas da negociação das posições políticas.