Título: Lula diz que já ganhou eleição no 1º turno e não teme denúncias
Autor: Tomazela, José Maria
Fonte: O Estado de São Paulo, 25/09/2006, Nacional, p. A4

Dois dias após admitir a possibilidade de as eleições serem definidas no segundo turno, num encontro com prefeitos em Brasília, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva mudou a estratégia e disse ontem que a vitória está garantida e que nunca falou em definição no primeiro turno por modéstia.

'Nunca falei que ia ganhar no primeiro turno por modéstia, por respeito. Mas agora falo: nós vamos ganhar essas eleições domingo e, se alguém achar que vai para o segundo turno, pode esperar para concorrer em 2010. Porque essa, nós já matamos ela (sic) no primeiro turno', discursou, em comício para cerca de 3.800 pessoas, em Sorocaba, no interior de São Paulo.

A mudança de atitude veio após pesquisa Estado/Ibope mostrar queda na vantagem de Lula para os adversários, o que aumenta as chances de segundo turno. A diferença do petista para a soma dos demais candidatos, que era de 7 pontos percentuais, está agora em 3 pontos. A margem de erro da pesquisa é de 2 pontos percentuais.

Na turbulência causada pelo escândalo da compra do dossiê Vedoin - bem na reta final da campanha de primeiro turno -, Lula tem dito que o PT não deve responder aos ataques, mas sempre acaba puxando o coro e disparando contra a oposição.

Ontem, ele afirmou não se assustar com a 'gritaria e o denuncismo'. 'Podem fazer denúncias, façam o que quiserem. Podem mandar fazer exame para saber o que eu fazia de mal quando era feto. Vamos ganhar de cara limpa.'

Conclamando os presentes a irem às urnas no próximo domingo para garantir sua reeleição já no primeiro turno, ele ironizou: 'Dia 1º de outubro é dia da onça beber água e essa oncinha está com sede.' E concluiu: 'Vão ter que se curvar à maioria do povo brasileiro'.

O presidente chegou a invocar a traição de Cristo pelo apóstolo Judas para justificar a crise causada pelo escândalo na sua campanha de reeleição. 'Não será o PT o único partido a ter companheiros que cometam erros', disse. 'A história da humanidade é assim. Vamos perceber que numa mesa de 12 um traiu Jesus Cristo e na mesa dos inconfidentes um traiu Tiradentes', disse Lula. 'Mas as idéias deles permaneceram.'

Lula disse que esta campanha não é de um candidato contra outro, mas 'a campanha do povo trabalhador contra uma elite aristocrática que manda nesse País desde que Cabral chegou aqui'. Mais uma vez ele disse que seus adversários não têm ódio dele, mas sim do povo, 'porque o pobre está participando das coisas'.

O presidente pediu aos petistas para que mostrem os números positivos de seu governo. 'Ao invés de ficarem falando mal deles (os adversários), vamos falar bem de nós.' Ele disse que programas como o Bolsa-Família incomodam a oposição. 'Por não terem condições de explicar o que fizeram, fazem o jogo rasteiro da denúncia.'

Em mais uma referência aos adversários, sem citá-los nominalmente, Lula disse: 'Eles sabem que mais quatro anos meus, vou desmoralizar muitos que governaram esse País. Eles sabem que eu não li todos os livros que outros leram, mas ninguém consegue entender o povo como eu entendo'.

Um forte esquema de segurança marcou a chegada do presidente ao aeroporto de Sorocaba e todo o trajeto da comitiva presidencial até o comício, na Praça Fernando Prestes, no centro. Anteontem, ele tivera seu carro atingido por ovo atirado por um manifestante, em Araraquara (SP).

Depois do discurso, Lula surpreendeu a segurança e desceu no meio do público, à frente do palanque. Deu autógrafos, beijos e abraços, em meio ao empurra-empurra.

'CONSPIRATA'

O presidente da Câmara dos Deputados, Aldo Rabelo (PCdoB), que participou do comício em Sorocaba, denunciou o que chamou de 'conspirata' da oposição para evitar um novo mandato do presidente Lula. 'As forças do atraso, que o governador (de São Paulo) Cláudio Lembo chamou de elite branca, essa turma que sempre conspirou contra um país democrático, estão articulando para impedir que o povo brasileiro seja aquele que vai definir a eleição.'

É a mesma elite, segundo Rabelo, que se opôs à República, levou Getúlio Vargas ao suicídio e tentou, por três vezes, tirar o mandado do presidente Juscelino Kubitschek.