Título: Crescimento precisa superar outros obstáculos
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Fonte: O Estado de São Paulo, 10/09/2006, Economia, p. B3
Durante décadas, a inflação foi o maior fator de desorganização da economia brasileira. Agora que ela está praticamente fora do radar, outros obstáculos ao crescimento ganham a atenção de empresários e analistas: o aumento das despesas do governo, a falta de investimentos públicos e privados em infra-estrutura, a elevada carga tributária, os juros reais ainda elevados, a falta de regras claras e estáveis, o risco de uma crise internacional. É por causa de problemas como esses que a economia brasileira deverá fechar o ano com um crescimento abaixo de 4%.
"A queda da inflação permite que a política de juros seja mais branda, mas é preciso que outros pilares macroeconômicos sejam fortalecidos para assegurar uma estabilidade mais ampla", disse o gerente-executivo da Unidade de Política Econômica da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Flávio Castelo Branco. O principal ponto de fragilidade, na avaliação dele, é a forma como o setor público arrecada e gasta dinheiro, a chamada política fiscal. Este ano, de janeiro a julho, o governo já elevou suas despesas em 14,8% na comparação com o ano passado. Quanto mais a máquina pública gasta, mais ela tem de arrecadar para cobrir as despesas. Resultado: a carga tributária sobe, dificultando a vida das empresas.
Outro problema que tira o sono de parte do empresariado é o dólar barato. Ao mesmo tempo em que o câmbio faz baixar o preço dos alimentos e mantém a inflação controlada, ela retira ganhos dos setores exportadores brasileiros e puxa para baixo o crescimento. Especialistas apontam o juro alto como a principal causa do dólar barato.
A taxa de juros brasileira completou um ano de quedas sucessivas, mas ainda é um fator que inibe novos investimentos das empresas e, por isso, funciona como um obstáculo ao crescimento econômico. O professor Paulo Pichetti, da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), acha que haveria mais espaço para queda se o Banco Central modificasse o índice de inflação que utiliza como referência para fixar o juro.
Hoje, o governo utiliza o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) como parâmetro. Os juros sobem ou descem para manter o IPCA dentro da meta. O juro serve para segurar o consumo e assim sufocar os reajustes de preços, contendo a inflação. Ocorre que o IPCA pode subir por causa do reajuste das tarifas, da alta do dólar e outros fatores (chamados de choque de oferta) que não têm nada a ver com o aumento do consumo. Ainda assim, se o IPCA der sinais que vai aumentar, o Banco Central tem de elevar o juro. Pichetti acha que deveria ser adotado como referência um outro índice, que deixasse os choques de oferta de fora.
"Antes, a inflação não nos deixava crescer. Agora os problemas são o câmbio, os juros e a carga tributária", diz o economista-chefe da corretora Convenção, Fernando Montero. Para ele, a solução de alguns desses entraves passa pela redução mais forte dos juros.
O crescimento é prejudicado, ainda, pela falta de investimentos públicos e privados. O investimento funciona como um motor para o crescimento, porque amplia a capacidade de produção da economia. Porém, o governo tem uma capacidade limitada de investir porque tem elevadas despesas obrigatórias, como pessoal e previdência. Já o setor privado segura os investimentos, entre outras razões, pela falta de regras claras para funcionamento da economia, o chamado "risco regulatório".
COMPROMISSO
Os empresários vêm cobrando do governo uma atenção especial a políticas que permitam ao País crescer de forma sustentada a taxas superiores a 5% ao ano. "Uma vez que o próprio presidente do Banco Central (Henrique Meirelles) considera que a inércia inflacionária foi derrotada, o governo precisa se convencer de que a prioridade agora passa a ser o crescimento", diz o presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf.
Para ele, o País só crescerá a taxas bem maiores que as dos últimos anos depois que promover as reformas ainda pendentes, como a previdenciária e a tributária, além de dar um choque de gestão nos gastos públicos. "E não podemos mais ter em mente que sempre que a demanda sinaliza positivamente haja uma política monetária e uma taxa de juros absurda que a matem".