Título: Se Marina sair, quem perde é o Brasil, avalia governador
Autor: Rosa, Vera
Fonte: O Estado de São Paulo, 17/12/2006, Nacional, p. A10

Os dois fizeram carreira no PT do Acre e o governador Jorge Viana se tornou um dos mais fiéis aliados da ministra do Meio Ambiente, Marina Silva - que corre o risco de ser substituída no segundo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O Ibama, órgão subordinado à pasta de Marina Silva, é apontado como um dos entraves ao crescimento, por dificultar a liberação de obras como hidrelétricas, sob a alegação de que elas oferecem risco à natureza.

Viana afirma que se trata de uma injustiça e que a questão ambiental é mal compreendida no Brasil. 'Marina tem sido vítima de críticas não pelos seus defeitos, mas pela qualidade demonstrada', diz ele.

A ministra Marina Silva chegou a dizer que perde o pescoço, mas não perde o juízo. O sr. concorda com as críticas feitas dentro do próprio governo à burocracia do Ibama e aos problemas que emperram os investimentos?

Tanto dentro quanto fora do governo essa questão ambiental não foi trabalhada adequadamente. Marina tem sido vítima de posicionamentos e críticas não pelos seus defeitos, mas pela qualidade demonstrada na condução da pasta que cabe a ela. Na área ambiental, ela é sem dúvida a maior autoridade que o País tem.

E ela vai ficar na equipe?

O presidente Lula tem demonstrado o carinho e o respeito que tem pela Marina. O governo tem de trabalhar melhor a questão ambiental: fortalecê-la e não enfraquecê-la. Eu vejo aí o perigo não de Marina perder o pescoço, porque ela já deixou claro que vai preservar o juízo. Eu vejo nisso o risco de o País perder a oportunidade de se firmar como nação que quer crescer, respeitando o ambiente com qualidade. Não podemos confundir pressa com ansiedade. O Brasil tem pressa, mas, se quiser crescer de forma adequada, não pode ser ansioso.

E a disputa de Marina com a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff? Não há ali um fogo amigo?

A ministra Dilma atua nessa questão ambiental desde que atuou no Rio Grande do Sul. Ela tem clareza da importância do meio ambiente. Agora, isso não é uma regra dentro do nosso governo, sinceramente. Então, é preciso um exercício para as pessoas conhecerem o que não sabem e conviverem com o tema ambiental. Os países que quiserem ser desenvolvidos não têm de deixar a questão ambiental subordinada aos governos. De certa forma, são os governos que têm de estar subordinados ao tema ambiental. Não é verdade que isso signifique impedir o crescimento. É possível conciliar respeito e incorporação definitiva desse tema com crescimento no Brasil.

De que forma? O próprio presidente Lula diz que é preciso destravar essa área.

O crescimento vai depender muito mais de um grande esforço que envolva prefeitos, governadores, o setor privado e o governo federal. Não acredito que só o governo federal fazendo tudo certo garanta crescimento nesses patamares. O setor privado em muitos momentos se acovarda, não gosta de correr risco. O governo Lula controlou a inflação, estabilizou a economia, foi radical no cumprimento de contratos. Então, não tem de cobrar mais nada. Agora o setor privado tem de botar o pescoço na corda e correr risco. Se o setor privado fizer isso e o nosso governo fizer uma boa articulação com os governadores, aí sim o Brasil pode surpreender a todos e ao mundo - crescendo inclusive acima de 5%.

O tamanho do PT no governo deve permanecer igual no segundo mandato do presidente Lula ou deve haver uma despetização?

O foco do PT não deve ser em quantidade, porque o partido já tem o cargo mais importante, que é o do presidente da República. A discussão mais apropriada é a qualidade de participação. Cabe ao presidente fazer esse arranjo. Temos de reforçar nesse time a figura dos goleadores, dos que fazem gol. Hoje há uma sobrecarga muito grande na figura do presidente e da ministra Dilma Rousseff. É insustentável isso por mais quatro anos.

Como assim?

Os problemas do País não vão diminuir a curto e médio prazo. Eles vão se ampliar. Nesse arranjo novo de governo, o presidente vai necessitar de pessoas que possam assumir tarefas sem dar tanto trabalho à Casa Civil e a ele, que possam tocar as coisas com eficiência. Agora é hora de fazer esse monstro chamado Brasil andar.