Título: CPI relâmpago acaba sem votar relatório no PR
Autor: Fadel, Evandro
Fonte: O Estado de São Paulo, 17/12/2006, Nacional, p. A19

A CPI do Grampo, criada para investigar denúncias de escutas telefônicas clandestinas no Paraná, foi encerrada 18 dias após sua instalação, inocentando o governo do Estado de qualquer participação na atividade ilegal. O pivô do caso era o policial civil Délcio Rasera, que se apresentava como assessor especial do governador do Paraná, Roberto Requião (PMDB), e cuja prisão deu início à investigação.

'Concluímos que não há provas de que o governo fez grampos', afirmou o relator, deputado Jocelito Canto (PTB). A investigação também não chegou a apontar o mandante do crime. Os deputados ouviram apenas depoimentos dos promotores da Promotoria de Investigações Criminais (PIC) Paulo Kessler e Dartagnan Abilhoa, e do policial Rasera. 'O promotor Kessler disse ter indícios de quem é o responsável pelo crime, mas não disse que é o governador', explica o deputado Canto. 'Rasera disse publicamente que não era o governador o mandante e afirmou que foi usado politicamente.' O relatório produzido pelo deputado petebista foi lido na última sessão da Assembléia, mas não chegou a ser votado.

Logo que o policial foi preso, em 5 de setembro, a oposição a Requião protocolou o pedido para que a CPI fosse instalada para apurar unicamente esse caso. Seu requerimento, no entanto, chegou atrasado: minutos antes os governistas haviam protocolado pedido para apurar casos dos últimos 12 anos.

Ao ser instalada a que viria a ser essa CPI relâmpago, no fim de outubro, os três deputados indicados pela oposição acabaram desistindo de participar. 'Tudo indica que a CPI vai existir para tentar proteger aquele que está sendo investigado', alegou Plauto Miro Guimarães (PFL), um dos desistentes.

No relatório, Canto sugeriu que a investigação seja retomada na próxima legislatura. 'Ficaram muitas dúvidas', ressaltou. 'Há escutas feitas por todo mundo, há escutas em todos os lugares, é muito fácil escutar, os equipamentos são modernos demais', diz. Para ele, uma das vitórias foi o fato de poder ouvir o policial acusado. Rasera está preso e respondendo a processo que corre em segredo de justiça.

No depoimento, o policial disse que sua prisão tinha o objetivo de 'arrebentar' com o governo Requião nas eleições. 'A pergunta que mais faziam era: quem é teu chefe?', relatou. A prisão foi bastante explorada pela oposição e foi considerada pela campanha de Requião como um dos motivos de ele não ter vencido no primeiro turno. 'Fui atrelado ao Requião e o Requião não tem nada a ver com isso', ressaltou. Rasera negou que fosse assessor do governo, apesar de ter cartões de visita com essa identificação. Ele disse que trabalhava na Casa Civil e era um 'atendente'.

O promotor Kessler ressaltou que as provas de que Rasera fazia grampos envolvendo autoridades são 'incontroversas'. Para o promotor, ele procura se transformar em 'preso político'.