Título: Ilegais recusam oferta da França
Autor: Bennold, Katrin
Fonte: O Estado de São Paulo, 23/12/2006, Internacional, p. A16
No momento em que a Europa luta para enfrentar a onda de refugiados econômicos vindos da África, a França está reformulando sua estratégia para repatriar imigrantes ilegais angariando o apoio de seus países. Porém, convencer nações pobres como Mali e Senegal a receber de volta migrantes que trabalham e enviam dinheiro para suas famílias não é tarefa fácil.
Na semana passada, a ministra do Desenvolvimento da França, Brigitte Girardin, não conseguiu persuadir o governo de Mali a assinar um acordo que facilitaria a repatriação de cidadãos desse país. Senegal e Gabão também se recusaram a fazer acordos semelhantes.
O governo francês está disponibilizando US$ 26 milhões nos próximos dois anos para subvenções a ilegais que concordem em voltar para casa e montar um negócio em seu país. Esses fundos são reservados a imigrantes de 34 países - da África subsaariana francófona, mais Etiópia, Marrocos, Vanuatu, Haiti e as Ilhas Comoros.
As autoridades francesas se frustraram com a falta de receptividade dos governos africanos em relação à medida. Para eles, porém, os governos ocidentais estão mais interessados em se livrar dos imigrantes do que em ajudar seus países.
¿Tentar manter africanos pobres fora dos países desenvolvidos é uma causa perdida¿, disse Amina Sidibé, do Alto Conselho Malinês, entidade com sede em Paris. ¿Essas iniciativas ajudam poucas pessoas, são uma gota d¿água no oceano.¿
Milhares de africanos chegaram às costas da Europa este ano. Só entre janeiro e outubro,mais de 26 mil desembarcaram nas Ilhas Canárias, na Espanha. Durante todo o ano de 2005, este número foi de 4.715.
Uma vez no continente, os imigrantes conseguem se deslocar com relativa facilidade para outros países, já que as fronteiras européias são abertas. Mesmo que muitos deles vivam na pobreza na Europa, não querem voltar. Por isso, vários países, como França, Alemanha e Holanda começaram a pagar para que eles fossem embora.
Na França, desde novembro de 2005, um imigrante ilegal que concorde em retornar a seu país recebe US$ 2.600. Um casal tem direito US$ 4.600, além de US$ 1.315 pelos três primeiros filhos. Ainda assim, em novembro deste ano, apenas 1.859 pessoas tinham aceitado a oferta. Cerca de 500 mil imigrantes ilegais preferiram ficar.
Vários governos europeus também têm procurado fazer acordos de readmissão com países africanos. Teoricamente, os ilegais podem ser repatriados sem a necessidade de tais acordos, mas a tarefa é complicada porque os imigrantes tendem a esconder sua nacionalidade.A França tem acordos que facilitam o repatriamento com 44 países da Europa, Ásia e América Latina, mas não com a África.
Até agora, a tônica da discussão sobre a imigração ilegal tem sido reforçar medidas de segurança. A Comissão Européia anunciou, mês passado, a criação de uma guarda costeira para patrulhar o litoral. Também serão propostas, no início do ano, leis aplicáveis em todos os países da União Européia para punir os empregadores que contratem imigrantes ilegais