Título: Morte e seqüestros rompem trégua
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Fonte: O Estado de São Paulo, 19/12/2006, Internacional, p. A12

Apesar da trégua acertada no domingo, as lideranças do grupo islâmico Hamas e do laico Fatah não foram capazes de controlar os choques entre os seus integrantes na Faixa de Gaza e na Cisjordânia, onde a situação ontem continuava fora de controle. No episódio mais violento do dia, um grupo de homens atacou a Vida e Esperança, organização humanitária ligada ao Fatah com sede no campo de refugiados de Jabaliya, matando uma pessoa e ferindo oito.

Dez integrantes do Fatah e quatro do Hamas, incluindo um deputado, foram seqüestrados em diversas regiões. No fim do dia os dois grupos chegaram a um acordo e libertaram os reféns. Em Gaza, 25 homens mascarados trocaram tiros e um adolescente foi ferido. O número de militantes armados nas ruas diminuiu, mas o clima de tensão ainda era grande.

Os dois principais grupos políticos palestinos estão se enfrentando desde sábado, quando o presidente Mahmud Abbas, do Fatah, anunciou a convocação de eleições antecipadas - o que levará à dissolução do governo do premiê Ismail Haniye, do Hamas. No domingo, militantes do Hamas abriram fogo contra a casa de Abbas, num dos episódios que reacenderam o medo de uma guerra civil na região.

O líder do Hamas no exílio, Khaled Meshal, acusou ontem Abbas de agir ilegalmente para destituir o governo do Hamas e confirmou que o grupo irá boicotar as novas eleições, ameaça que havia sido feita por Haniye.

Abbas, que se encontrou, em Ramallah, com o premiê britânico, Tony Blair, reagiu negando que a recente onda de violência possa fazê-lo voltar atrás. ¿Estamos em crise há nove meses. As pessoas não podem esperar mais¿, afirmou. De acordo com Sufian Abu Zaida, ex-ministro do Fatah seqüestrado por algumas horas ontem, se o Hamas não aceitar as votações correrá ¿um rio de sangue¿ na região.

A intrincada disputa política entre os grupos palestinos teve início em janeiro, quando o Hamas venceu o Fatah nas eleições parlamentares. Desde que Haniye assumiu, dois meses depois, a comunidade internacional está impondo sanções econômicas à Autoridade Palestina, o que tem deteriorado as condições de vida na região. Sem os recursos externos - mais de US$ 1 bilhão em ajuda anual - Haniye não tem como pagar os funcionários públicos e manter escolas e hospitais.

Para tentar convencer a Europa e os EUA a levantar o bloqueio, o Hamas concordou em iniciar as negociações para formar um governo de coalizão, que incluiria o Fatah. Porém, o diálogo chegou a um impasse no mês passado, por causa da recusa do grupo islâmico em reconhecer o Estado de Israel e renunciar à violência - exigências das potências.

Sem alternativas, Abbas resolveu convocar eleições parlamentares e presidenciais, decisão que o Hamas classificou como ¿tentativa de golpe¿ contra seu governo. De acordo com uma pesquisa recente, o Fatah teria 42% dos votos se eleições legislativas fossem hoje, contra 36% do grupo islâmico. No caso das presidenciais, haveria empate técnico. Mas como quem controla o Parlamento tem nas mãos o gabinete de governo e os recursos do Estado, poderia valer a pena para o Fatah arriscar perder a presidência.

TONY BLAIR

Em Ramallah, o premiê britânico pediu que a comunidade internacional apóie Abbas. O líder palestino, visto como moderado, é a grande aposta do Ocidente para a paz na região, já que, ao contrário do Hamas, aceita negociar com Israel. ¿Queremos trabalhar com pessoas moderadas e tolerantes¿, disse Blair. Abbas adotou um tom igualmente conciliador e disse estar pronto para se reunir com o premiê israelense Ehud Olmert. Segundo Olmert, que esteve com Blair no início da noite, o encontro ocorrerá ¿muito em breve¿.

A iniciativa de Abbas de convocar eleições antecipadas também é apoiada pelos EUA. A Casa Branca está tentando convencer o Congresso a aprovar o repasse de recursos para os salários e o treinamento das tropas leais à Abbas, de acordo com o porta-voz do Departamento de Estado, Sean McCormack.