Título: Vacina pára transmissão da malária no mosquito
Autor: Girardi, Giovana e Amorim, Cristina
Fonte: O Estado de São Paulo, 19/12/2006, Vida&, p. A20

Se ainda não existe uma vacina para prevenir a proliferação da malária em seres humanos, que tal impedir que o mosquito transmissor contraia a doença? Essa é a proposta de uma equipe de pesquisadores dos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos. Eles desenvolveram uma vacina experimental que, em teoria, pode eliminar a moléstia em toda uma região geográfica, ao erradicar o parasita no mosquitos.

A idéia de tentar parar o ciclo da doença no transmissor não é de todo nova. Aqui mesmo no Brasil uma equipe da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) desenvolveu neste ano um inseto transgênico com uma alteração que eliminou sua capacidade de transmitir o Plasmodium falciparum. O novo trabalho, no entanto, tenta fazer com que o bicho nem sequer se contamine ao picar uma pessoa infectada.

Por enquanto a nova vacina foi testada somente em camundongos, mas em humanos o objetivo é que funcione da mesma maneira. Ela não deve prevenir ou eliminar a doença em alguém que já esteja contaminado. Mas espera-se que a droga possibilite que o sistema imunológico da pessoa vacinada elimine o parasita assim que ele atingir o trato digestivo do mosquito, logo após o inseto sugar o sangue da sua vítima.

O objetivo é que, desse modo, seja possível evitar a expansão da moléstia que mata anualmente mais de 1 milhão de crianças no mundo, segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS).

CICLO QUEBRADO

O parasita da malária passa parte de seu ciclo de vida no homem e a outra parte no mosquito Anopheles. No homem, as células infectadas escapam do sistema imunológico ao se ¿esconderem¿ entre células hepáticas e sanguíneas. A maioria é formada por células assexuadas, mas algumas se transformam em gametas (células sexuais).

A fertilização, que vai gerar mais plasmódios, acontece apenas no estômago do mosquito fêmea que picou o homem infectado. É neste momento que a nova vacina se baseia, como descreve a equipe em um artigo publicado no site da revista Proceedings (www.pnas.org), da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos.

Os cientistas identificaram uma proteína do plasmódio, a Pfs25, que só aparece quando está no estômago do inseto. Do jeito original, ela não provoca uma reação de defesa do corpo humano suficiente para impedir a manifestação da malária. Mas, ao modificarem a Pfs25 com outras proteínas, a resposta do corpo foi melhorada e ela serviu como um chamariz para os anticorpos.

Os cientistas injetaram a nova proteína em camundongos, o que permitiu ao sistema imunológico dos animais reconhecer com facilidade a molécula e montar uma reação suficiente para combater o plasmódio - ele se estendeu até o mosquito, destruindo o plasmódio no vetor. O resultado se prolongou por até sete meses depois da imunização.

Este é ainda um primeiro passo da vacina, que precisa ser validado por outros testes. O processo pode levar anos. Os cientistas, contudo, estão confiantes no método. Eles querem testar a técnica contra outro tipo do plasmódio, o P. vivax - o principal causador de malária no Brasil.