Título: Para governo, resultado é ruim mas não tira votos
Autor:
Fonte: O Estado de São Paulo, 01/09/2006, Economia, p. B3
A notícia de que o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu apenas 0,5% no segundo trimestre acendeu dois tipos de alerta dentro do governo: o eleitoral e o econômico. Desses, o que mais preocupa é a possibilidade de a economia seguir morna mais à frente.
Na equipe de governo, já era esperado que a oposição batesse duro no desempenho fraco da economia, como de fato ocorreu ontem. A avaliação é de que, embora tenha sido ruim dar um mote para os outros candidatos criticarem o governo Luiz Inácio Lula da Silva, o efeito disso nas urnas tende a ser nulo. Isso porque, para boa parte da população, o que conta é a comida mais barata, o acesso facilitado ao crédito e melhores perspectivas de conseguir emprego. Um crescimento pífio no PIB trimestral é algo que dificilmente afetaria a decisão de voto das pessoas, avalia o governo.
O resultado do PIB divulgado ontem reforça a análise de alguns integrantes da área técnica, que esperam um crescimento inferior a 4% em 2006. É algo que se fala nos bastidores, mas dificilmente será admitido em público antes das eleições. No discurso oficial, a projeção segue sendo de um aumento do PIB entre 4% e 4,5%.
A taxa de crescimento de 2006, porém, nem é o que mais preocupa o governo. O problema central é o efeito negativo que o crescimento de 0,5% exerce sobre o desempenho futuro da economia.
Na avaliação de um integrante da área econômica, o risco é o ritmo fraco ser mantido em 2007. Nesse caso, a arrecadação de impostos tenderá a cair e o governo se verá obrigado a cortar gastos, o que muito provavelmente significará contenção dos investimentos públicos. Resultado: será reduzido o ritmo de obras como estradas, portos e ferrovias e, assim, serão mantidos os entraves estruturais ao crescimento da economia brasileira.
O crescimento fraco também afeta negativamente as decisões de investimentos privados, reduzindo as chances de manter um ciclo de crescimento econômico. Para os empresários, taxas modestas de expansão do PIB, como os 2,3% registrados em 2005 ou o 1,7% acumulado no período de 12 meses terminados em junho, são uma ducha de água fria.
Foi com um olho no desempenho futuro da economia que o Comitê de Política Monetária (Copom), reunido anteontem, surpreendeu os economistas do mercado e cortou os juros em 0,5 ponto porcentual, num momento em que a maioria apostava em uma queda de apenas 0,25 ponto porcentual.
Além de evitar dar mais um mote para a oposição criticar o governo, o corte maior foi uma espécie de compensação antecipada pela notícia do PIB fraco. O corte na taxa Selic indica ao empresário que a perspectiva de seguir crescendo é positiva, pois o juro baixo animará o consumo. A taxa de juros de 14,25% fixada anteontem gerará efeitos na economia real aproximadamente seis meses à frente, ou seja, a partir de fevereiro.