Título: Em Cafundó, esforço para salvar identidade
Autor: Arruda, Roldão
Fonte: O Estado de São Paulo, 24/12/2006, Nacional, p. A8

A vida passa devagar no Quilombo do Cafundó. No centro da comunidade, uma espécie de praça de chão de terra, ouvem-se as folhas das palmeiras, farfalhando sob a brisa da tarde. Ouvem-se também os passarinhos. São coleirinhas, bigodinhos, andorinhas, sanhaços e outros que vêm bicar abacates, mangas, ameixas, goiabas, conforme a estação do ano.

¿O que canta mais bonito é o coleirinha¿, opina o garoto Jadson, de 13 anos. ¿Jadson com `d¿ mudo¿, faz questão de frisar, para o repórter não errar. Ele concluiu agora a sétima série do fundamental e adora passarinhos. Chama a atenção o fato de, vez ou outra e com certo esforço, ele se dirigir à mãe numa língua ininteligível.

Luciana Rosa de Aguiar Lima, a mãe, de 38 anos, fica satisfeita. Um dos maiores desejos dela é fazer com que Jadson e seus outros quatro filhos aprendam a falar a cupópia, língua usada apenas no Quilombo do Cafundó, na zona rural de Salto do Pirapora, a 150 quilômetros de São Paulo. A língua foi inventada nessa região, no fim do século 19, antes da Lei Áurea.

ORIGENS

A história começa com a morte de um fazendeiro, solteiro e sem filhos, que deixou em testamento que seus escravos fossem libertados e ficassem com a propriedade. Formou-se uma comunidade de negros, na qual surgiu a cupópia, que, segundo pesquisadores, mistura a estrutura do português com palavras africanas, originárias do banto. Servia - e serve - para os quilombolas se comunicarem na presença de estranhos.

O Cafundó hoje faz parte da lista das centenas de quilombos que reivindicam mais terras. Os ex-escravos libertados pelo fazendeiro perderam a área original da propriedade, que teria 218 hectares, e acabaram confinados em 17 hectares, no fundo de um vale, cercados por pastos e eucaliptos. No meio das 22 famílias que ali vivem, não chega a dez o número de pessoas que usam a cupópia e se referem à lua com a expressão cumbe do téqui - sol da noite.

Há 34 anos, eles começaram a brigar para reaver três glebas de terra ao redor, que teriam pertencido aos antepassados, num total de 188 hectares. Antropólogos do Instituto de Terras do Estado (Itesp) confirmaram a história. Mas até hoje o quilombo não conseguiu nada.

Na semana passada, a superintendência do Incra em São Paulo informou que acaba de ser iniciado o processo administrativo de desapropriação de uma parte da área. A medida não convenceu.¿Sempre aparece um recurso novo¿, lamenta Marcos Almeida, de 46 anos.

Marcos e seu irmão Juvenil Rosa, de 49 anos, são tios de Luciana. Eles formam o trio que mais se empenha para manter as tradições. Luciana os ensina a dançar o jongo, cantando como seus antepassados. Ela às vezes pensa em recuperar a religiosidade africana, mas se sente intimidada pelos evangélicos, que já construíram um templo dentro do quilombo.