Título: Pretos e pardos ganham a metade por hora trabalhada
Autor: Rodrigues, Karine
Fonte: O Estado de São Paulo, 18/11/2006, Vida&, p. A30
Durante anos repetido em vão para os colegas, o relato de desigualdade feito pela carioca Fátima Moreira, de 50 anos, é corroborado pela variação de rendimento por hora registrada pela IBGE. Pretos e pardos ganham R$ 4,15 - metade dos R$ 8,16 pagos aos brancos. ¿A gente fala, mas não acreditam. Já passei por isso muitas vezes, mas mudei de emprego e hoje ganho pela qualidade do meu trabalho¿, conta ela, que é chefe de Recursos Humanos.
Sejam quais forem as razões - qualificação profissional, formação educacional ou discriminação como a vivenciada por Fátima -, o fato é que, em todas as seis regiões metropolitanas analisadas os negros ganham menos. Em Salvador, a situação é ainda pior, pois pretos e pardos estão muito abaixo da média nacional. Eles ganham apenas 37% do valor pago aos brancos. Na análise da distribuição da população ocupada, os brancos predominam (83,3%) na faixa de maior rendimento, superior a R$ 1.785.
Os dados mostram também que a questão de raça prevalece sobre a de gênero: mulheres brancas têm renda superior (R$ 1.046) aos de homens negros (R$ 757).
As disparidades estão evidenciadas também no rendimento familiar per capita. Nos domicílios onde o principal responsável é branco, o ganho é 2,3 vezes superior ao registrado entre os negros: R$ 950 ante R$ 417.
Em Salvador, a diferença é de 2,9 vezes. Em outro tipo de análise, que considera apenas a população ocupada masculina, de 18 a 49 anos, e 11 anos ou mais de estudo, também há desigualdades. No setor da construção, há uma distância de 105,6% no valor do rendimento. Na indústria, 96,6%.
Embora o estudo seja quantitativo, o gerente da pesquisa, Cimar Azeredo, avalia que as expressivas discrepâncias devem ser reflexo de uma diferenciação no tipo de formação da população. ¿Não é só uma questão de anos de estudo, mas de qualidade. O passaporte para o mercado de trabalho está na educação, e se ele não tem uma chancela boa, a inserção não se dá¿, diz. Professor da UFRJ, Marcelo Paixão questiona: ¿Se isso não é sinal de discriminação, e a questão deve ser explicada apenas por uma melhor ou pior formação educacional, por qual motivo os brancos, em geral, é que estão nas melhores escolas, nas melhores universidades?¿.
Com menores rendimentos, os negros acabam contribuindo menos para a Previdência. Entre os empregados sem carteira no setor privado 7,2% dos pretos e pardos pagam o tributo, ante 16,2% dos brancos. Já entre os trabalhadores por conta própria, a distância é ainda maior, respectivamente, 9,8% e 23,8%. ¿A renda influi¿, observa Azeredo.