Título: Desigualdades raciais persistem na educação e no trabalho
Autor: Rodrigues, Karine
Fonte: O Estado de São Paulo, 18/11/2006, Vida&, p. A30
Duas verdades inegáveis: o Brasil é o país da miscigenação, e aqui a igualdade racial não passa de mito. É também onde o tom da pele resulta em diferenças, que fazem da universidade um espaço de maioria branca, e tornam as ocupações mais bem remuneradas quase inacessíveis aos pretos e pardos. As desigualdades, visíveis no dia-a-dia, estão em números do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que ontem divulgou a Pesquisa Mensal de Emprego (PME), considerando os critérios de cor ou de raça - estudo semelhante foi lançado, pela primeira vez, em 2004.
Realizado em setembro, em 41 mil domicílios, o levantamento reúne dados de seis regiões metropolitanas (Recife, Salvador, Belo Horizonte, Rio, São Paulo e Porto Alegre), relativos à população em idade ativa, ou seja, com 10 anos ou mais. Elas representam 39,8 milhões de pessoas, sendo que 56,5% se autodeclararam brancas, 42,8% pretas ou pardas, 0,7% amarelas e 0,1% indígenas.
A pesquisa mostra que, desde 2002, o Brasil vem conseguindo uma ligeira melhora na renda e na escolaridade da população, mas encontra dificuldade para reduzir a distância entre as raças. A escolaridade passou de 7,6 para 8 anos de estudo, porém, os brancos estão 1,6 ano à frente, como em 2002. Além disso, enquanto 45,9% dos brancos haviam cursado, pelo menos, o nível médio completo, entre os pretos e pardos a proporção era de 28,5%. Na faixa de 10 a 17 anos, quando todos devem estar estudando, havia 30% mais negros fora da escola - no Recife a diferença chegava a 45,7%.
Na universidade, outra marca da desigualdade: a proporção de pessoas com 18 anos ou mais que freqüentavam ou já haviam estado em um curso superior subiu na população, mas a distância entre as raças está maior: 25,5% dos brancos e 8,2% dos pretos e pardos encaixavam-se no perfil. Entre as pessoas ocupadas, com mais de 18 anos, 21,8% dos brancos e 5,4% dos negros tinham nível superior.
RENDIMENTO MÉDIO
¿As estatísticas mostram um abismo entre a população branca e a população de pretos e pardos. É algo que faz parte do processo histórico do País, pois eles não vieram para o Brasil como reis, mas em navios negreiros. São diferenças expressivas, e as políticas públicas não foram suficientes para reduzi-las¿, analisa o gerente da PME, Cimar Azeredo, destacando a gravidade da discrepância entre o rendimento médio da população.
Em tese, pessoas sem instrução ou com menos de um ano de estudo deveriam obter a mesma remuneração, mas os brancos ganham R$ 60 a mais. A disparidade se acentua conforme aumenta a escolaridade. Na faixa de oito a dez anos de estudo, a diferença é de R$ 135, ou 61%. Com 11 anos ou mais, é R$ 829, ou 149% (R$ 899,64 ante R$ 1.728,38). Em Salvador, os valores são R$ 908,30 para negros e 2.062,59 para brancos.
Para quem toma a distância entre os rendimentos apenas como um sinal da discriminação racial - que o brasileiro, em geral, nega -, o economista André Urani faz um alerta. ¿A diferença salarial, em grande parte, não se deve à cor, mas às condições de acesso à educação¿, avalia ele, que é diretor executivo do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade (Iets).
O desequilíbrio vem se reproduzindo entre as gerações, observa o diretor da graduação em Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Marcelo Paixão. Enquanto isso, acrescenta, grande parte da sociedade finge que não vê ou trata o problema como algo natural. ¿As pesquisas sobre cor e raça são recentes. A academia não discute o assunto. É preciso mudar, pegar os números e transformar a realidade que mostram. As causas da desigualdades são complexas. A forma de acabar com elas, também.¿ Ele defende ações afirmativas, como o sistema de cotas nas universidades, para produzir alterações significativas.
Essa também é a visão da ministra de Políticas de Promoção da Igualdade Racional, Matilde Ribeiro. ¿A criação de cotas ajuda a mudar as perspectivas dos negros e a visão que os empregadores têm do mercado de trabalho.¿
DISCRIMINAÇÃO
Embora a pesquisa do IBGE não tenha incluído perguntas sobre discriminação, os pesquisadores entendem que, em algum peso, ela está visível na disparidade revelada. Para a pesquisadora do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas, Fernanda Carvalho, o preconceito contribui, e muito, para os dados encontrados. ¿Precisamos de políticas públicas que dêem conta desses grupos, que façam com que eles também tenham acesso ao ensino de qualidade e aos cargos com remuneração. Há discriminação, muitas vezes velada¿, diz. E lembra: diante da pergunta ¿onde você guarda o seu racismo?¿, feita durante campanha contra o preconceito, várias pessoas confessaram mudar de calçada quando, em lugares ermos, encontram pela frente um negro.