Título: Setor de autopeças freia os novos projetos
Autor: Silva, Cleide
Fonte: O Estado de São Paulo, 24/12/2006, Economia, p. B6

A indústria de autopeças freou os investimentos e gastou 7% menos que no ano passado em novas fábricas, equipamentos e modernização. Embora tenha ajudado as montadoras a baterem recorde de produção, com cerca de 2,6 milhões de veículos, o setor investiu US$ 1,3 bilhão, US$ 100 milhões menos que no ano anterior, quando foram produzidos 2,5 milhões de carros.

Para 2007, apesar de ser esperado novo recorde de produção de veículos, as autopeças praticamente vão repetir os gastos deste ano. Ainda assim, os investimentos das autopeças nesses três anos superam os do período de 2001 a 2004, que ficaram entre US$ 260 milhões e US$ 843 milhões.

O setor projeta só 1 mil contratações no próximo ano, metade do número de 2006, que ficou abaixo do previsto. Em janeiro, o Sindicato Nacional dos Fabricantes de Autopeças (Sindipeças) falava em 5 mil contratações. O setor encerra o ano com 199 mil empregados.

Muitos empresários estão em compasso de espera de novas medidas do segundo mandato do governo Lula para tomar decisões, informa o presidente do Sindipeças, Paulo Butori. Foram declarados até agora investimentos de US$ 1,35 bilhão em 2007. ¿Vai investir quem chegou ao limite da capacidade produtiva.¿

Esse é o caso da ZF Lemförder, fabricante de barras de direção e componentes para chassi, que vai construir a segunda fábrica em 2007 para mais que dobrar a capacidade produtiva. O novo prédio será instalado ao lado do atual, em Sorocaba (SP) e vai custar R$ 8 milhões. Outros R$ 10 milhões serão gastos na compra de equipamentos.

¿A atual instalação não é suficiente para abrigar o crescimento futuro¿, diz Wilson Sapatel, diretor-geral da ZF Lemförder. Negócios já conquistados vão garantir aumento de 23% no faturamento em 2007. Este ano, o crescimento foi de 17% em relação a 2005 e somou R$ 86 milhões. Pelo menos 150 vagas serão abertas para ampliar o quadro de 325 funcionários.

Para Butori, o baixo crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) inibe a intenção de investimentos. ¿Foi um ano morno e deve continuar assim.¿ A indústria ¿vai chegar atrasada, pois está na expectativa das reformas prometidas e, no curto prazo, do anúncio de novos ministros, pois espera a escolha de técnicos e não de amigos.¿

BALANÇA

Os resultados da indústria de autopeças não foram ruins em 2006. O faturamento real cresceu 5,4% em relação a 2005, para US$ 28,4 bilhões. Apesar das reclamações da política cambial, o setor exportou US$ 8,8 bilhões, 17,6% mais que no ano anterior. Em 2007, o crescimento será em ritmo menor. Deve ficar na casa dos 4,5%, prevê Butori, e atingir US$ 9,2 bilhões.

As importações de autopeças e matéria-prima, ao contrário de previsões iniciais, não dispararam. Cresceram 2,2%, para US$ 6,8 bilhões, garantindo ao setor o superávit de US$ 2 bilhões, bem superior aos US$ 900 milhões projetados no início do ano pelo Sindipeças. No próximo ano, o saldo positivo deve ir a US$ 2,2 bilhões.

Butori projeta para o próximo ano produção de 2,7 milhões de veículos, igual número esperado pela Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), um aumento de pouco mais de 3% em relação a este ano

Empresas que vão dar suporte a esse crescimento, como a ZF, terão de produzir mais. A nova instalação da empresa em Sorocaba permitirá ampliar a produção de 4,5 milhões para 10 milhões de peças ao ano. Os principais clientes são as montadoras, mas um contrato recém-fechado com a Volkswagen do México levará as exportações a representarem cerca de 6% do faturamento. ¿Hoje quase não exportamos nada¿, afirma Sapatel.

A Honeywell, fabricante de turbo compressor e peças para motores a diesel em Guarulhos, na Grande São Paulo, vai investir US$ 1,7 milhão em 2007, sendo US$ 700 mil em equipamentos e ampliação de algumas áreas da fábrica.

¿Conquistamos três novos negócios e temos de desenvolver os produtos para fornecimento a partir do segundo semestre¿, afirma José Rubens Vicari,diretor-geral da empresa na América do Sul, sem dar detalhes dos lançamentos dos clientes.

A empresa aposta em recuperação do mercado de veículos de transporte de carga, que este ano ficou prejudicado por causa do baixo desempenho do setor agrícola. Este ano, a Honeywell registrou queda de 5% na produção, parte por causa da redução das vendas no mercado interno e também das exportações. ¿Perdemos pelo menos US$ 1 milhão em vendas para a Europa¿, diz Vicari.