Título: Situação segue 'ameaçadora', diz Petrobrás
Autor: Pamplona, Nicola
Fonte: O Estado de São Paulo, 16/09/2006, Economia, p. B6

Embora o governo boliviano tenha congelado a expropriação das receitas das refinarias da Petrobrás no país, o presidente da estatal brasileira, José Sérgio Gabrielli, afirmou ontem que os negócios da companhia continuam ameaçados. 'O gesto do vice-presidente Álvaro García Linera é positivo, mas a situação permanece ameaçadora na viabilidade do refino na Bolívia', afirmou o executivo, por meio de sua assessoria de imprensa.

Um dia após o recuo boliviano, a estatal preferiu manter a cautela nas negociações com La Paz. O único comentário oficial foi a curta declaração de Gabrielli. Extra-oficialmente, a avaliação é de que o congelamento da resolução 207/2006, editada na terça-feira, é um sinal de que a Bolívia está disposta a negociar, mas ainda é cedo para qualquer conclusão.

'Se interpretarmos de uma forma otimista, é uma demonstração de quem quer fazer as pazes. Mas eles têm mudado de idéia com freqüência', ressaltou uma fonte. A resolução que confisca as receitas das refinarias foi publicada apenas 19 dias depois de uma visita oficial de Linera ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, na qual o representante boliviano se comprometeu a reabrir e aprofundar as negociações, com o agendamento de uma reunião para ontem.

O texto foi interpretado pela estatal como uma forma de tornar inviáveis suas operações no setor e levou o governo a cancelar a reunião, que teria a presença do ministro de Minas e Energia, Silas Rondeau.

Ontem, Linera disse ao jornal boliviano La Razón que o país fará todos os esforços para que o assunto não chegue ao ponto de necessitar de uma arbitragem internacional. 'Mas a enfrentaremos se for preciso', ressaltou. 'Se chegar um momento em que, para não irmos à arbitragem, teremos de transigir aos nossos princípios, preferimos a arbitragem.'

LONGE DO FIM

Na avaliação do mercado, porém, o processo de nacionalização do setor boliviano de petróleo e gás ainda terá muitas idas e vindas, com grande possibilidade de prorrogação do prazo para as negociações, que, segundo o decreto de nacionalização de 1º de maio, devem ser concluídas no início de novembro.

'Não acreditamos que a história chegou ao final. Devem haver ainda alguns altos e baixos e colisões até que o governo boliviano consiga balancear uma política que atinja o objetivo final sem prejudicar o grande potencial dos negócios do setor', avalia, em relatório, o banco Merril Lynch. O texto minimiza os efeitos de uma possível expropriação dos ativos sobre os resultados da Petrobrás, já que o país representa apenas 2,4% do total produzido pela companhia.

Para o consultor Adriano Pires, o congelamento da resolução 207 não reduz os riscos, uma vez que o texto poderá ser usado como arma durante as negociações sobre outros temas. 'As negociações ficaram muito mais complicadas, porque existe a ameaça de voltar com a resolução caso os pleitos bolivianos não sejam atendidos.' Em paralelo à questão do refino, a Petrobrás discute com os bolivianos o preço do gás importado pelo Brasil e novos contratos de concessão dos campos de gás que tem no país vizinho.