Título: Brasil pode cooperar com Chávez na área nuclear
Autor:
Fonte: O Estado de São Paulo, 07/09/2006, Nacional, p. A5
Pelo menos quatro países da América do Sul - Venezuela, Chile, Peru e, em menor escala, o Equador - estão empenhados em programas de reequipamento das Forças Armadas. No Brasil os comandos militares amargam o contingenciamento de recursos. Essa situação não torna mais vulnerável o País?
A melhor forma de evitar uma corrida armamentista na América do Sul é a cooperação. O Brasil tem procurado ampliar a integração regional por intermédio de iniciativas como a criação da Comunidade Sul-Americana de Nações (Casa) e acordos comerciais do Mercosul com os demais países da América do Sul. Além disso, temos procurado intensificar o diálogo com nossos vizinhos na área de defesa. (...) No entanto, essas iniciativas não nos impedem de buscar a modernização das nossas Forças Armadas. De 2003 a 2006, o orçamento do Ministério da Defesa aumentou de R$ 25,8 bilhões para R$ 36,3 bilhões. (...) Tenho certeza de que hoje estão dadas as condições para que o crescimento experimentado nos próximos anos venha a permitir a destinação de recursos mais expressivos para a área da defesa. O Brasil tem dimensões continentais e potencialidades muito amplas. Seu sistema de defesa deve ser capaz de dissuadir qualquer tipo de aventura.
O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, anunciou que pretende ativar o acordo de cooperação firmado com o Brasil no campo da tecnologia nuclear. O senhor venderia um reator atômico a Chávez?
(...)Defendemos a cooperação internacional nessa área e o direito de todos os países a terem acesso à tecnologia nuclear para fins pacíficos, sob a supervisão dos organismos multilaterais especializados, como a AIEA. (...) Assim como em outras áreas, nas quais temos uma parceria importante com os venezuelanos - comércio, importação de energia, presença de empreiteiras brasileiras em obras de infra-estrutura -, também no campo nuclear (medicina, pesquisa etc.) há possibilidades de cooperação.
O senhor tem dito que sua política externa é um sucesso. Qual a razão para pensar assim, se: 1. O Brasil não conseguiu a vaga no Conselho de Segurança da ONU; 2. As posições brasileiras têm sido constantemente rechaçadas na OMC; 3. O Brasil lançou candidato à OMC e não teve apoio nem de parceiros como a Argentina e o Uruguai; 4. O Mercosul está patinando, com a insatisfação cada vez maior do Paraguai e do Uruguai e com as atitudes unilaterais e independentes da Argentina; 5. O senhor apoiou a candidatura de seu amigo Evo Morales e em troca estamos tendo problemas com o preço do gás boliviano e a Petrobrás está perdendo o que investiu lá?
Nossa política externa é um sucesso: 1. A reforma do Conselho de Segurança é uma necessidade da democratização dos processos decisórios internacionais e dará maior legitimidade e eficácia à atuação daquele órgão. (...) É preciso ter consciência de que a reforma do Conselho leva tempo, mas ela é necessária e ocorrerá. (...) 2. É totalmente falso afirmar que as posições brasileiras têm sido rechaçadas na OMC. Em 2003, criamos o G-20, que é respeitado e buscado por todos os demais membros da Organização e mudou a agenda das negociações da Rodada Doha em benefício dos países em desenvolvimento. Além disso, o Brasil vem sendo bem-sucedido em suas demandas, no âmbito da OMC, contra práticas comerciais desleais - caso dos painéis sobre o algodão e o açúcar. 3. Qualquer pessoa que conheça mais profundamente a diplomacia multilateral sabe que não se pode medir a influência de um país por candidaturas. A importância e a liderança do Brasil na OMC nunca foram tão grandes como hoje. Basta lembrar que o G-20 se reunirá no Rio de Janeiro, neste mês de setembro, com a presença de muitos ministros dos países em desenvolvimento, dos EUA, da União Européia e do Japão, além do diretor-geral da OMC. (...) 4. Nossas relações com a Argentina nunca estiveram tão boas nem nosso comércio tão intenso como hoje. (...) Em relação ao Uruguai e ao Paraguai, estamos buscando resolver os problemas decorrentes das assimetrias econômicas e impulsionar o relacionamento em áreas como comércio e investimentos. As dificuldades que existem no Mercosul são normais a qualquer processo de integração regional, como mostram os percalços enfrentados pela União Européia, a mais bem-sucedida experiência de integração. 5. Não tomei partido nas eleições bolivianas. Basta recordar que convidei a visitar o Brasil os três principais candidatos, dois dos quais (Evo Morales e Samuel Dora Medina) estiveram comigo em Brasília. (...) Dado o amplo apoio que recebeu dos bolivianos, acredito que sua eleição representa uma oportunidade excepcional para a Bolívia realizar essas transformações de forma pacífica e duradoura. De minha parte, nunca deixei de defender com firmeza os interesses brasileiros na Bolívia, o que continuarei a fazer pela negociação. Os bolivianos entenderam que o Brasil não aceitará modificações unilaterais de contratos vigentes.