Título: FHC diz que falta condição moral a Lula para governar e faz autocrítica
Autor: Mendes, Vannildo
Fonte: O Estado de São Paulo, 08/09/2006, Nacional, p. A4
Em uma ¿Carta aos Eleitores do PSDB¿, divulgada no site do partido, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso fez ontem a mais contundente análise sobre o que ele chamou de ¿momento paradoxal¿ da ¿desfaçatez¿ da política brasileira. ¿Para que não pairem dúvidas¿, FHC deixa claro que as críticas são dirigidas ao presidente Lula e ao PT, a quem responsabiliza pela crise ética e ¿a podridão reinante¿ no País.
Admitindo que ¿há muita confusão no ar no trato das questões morais¿, FHC usou a carta para também fazer uma autocrítica do comportamento dos tucanos e citar explicitamente o caso do senador Eduardo Azeredo (MG), que era presidente do partido quando foi acusado de ter se beneficiado do valerioduto na campanha eleitoral de 1998. ¿Erramos quando quisemos tapar o sol com a peneira¿, escreveu o ex-presidente.
Em tom de autocrítica, ele referiu-se ainda às prisões de São Paulo - ¿caldo de cultura da criminalidade¿, apesar do trabalho positivo de combate à violência, disse - e à privatização mal feita do setor elétrico no seu governo (1995-2002).
No texto, FHC afirma que a atitude de Lula no caso do mensalão justificaria a abertura de processo por crime de responsabilidade. Acrescenta que as condições morais que faltam ao presidente para governar o Brasil sobram ao candidato tucano, Geraldo Alckmin.
O documento é dirigido ¿aos militantes, simpatizantes e eleitores¿ do PSDB e ¿às pessoas de boa-fé que olham para a política com atenção, embora sem se envolver na vida partidária¿.
Os trechos mais fortes da carta são os que abordam o escândalo do mensalão. ¿Pagar mensalão é crime e como crime deve ser tratado¿, diz ele. ¿A fonte foi pública; é roubo de dinheiro do povo, ainda que empréstimos fictícios de bancos privados tenham sido usados para encobrir esse fato.¿
De acordo com Fernando Henrique, Lula e o PT levaram os piores setores da política para cena principal, ¿expondo o País às misérias a que todos assistimos indignados¿. Ele considera ser revoltante ver ¿o presidente e seus arautos passarem a mão na cabeça dos que erraram¿, com a desculpa de que ¿todos são iguais¿. Para o ex-presidente, essa é ¿uma versão mais sofisticada da mesma falta de vergonha de dizerem que a culpa é do sistema¿.
¿A impunidade, a postergação de decisões da Justiça sobre presumíveis culpados desmoraliza tudo, desanima a população e dá a impressão de que o povo é indiferente à corrupção¿, registra o texto, cuja maior parte é dedicada mesmo a dissecar a gênese dos mais recentes escândalos. ¿Não é indiferença, é descrença na punição¿.
FHC chama os tucanos a encarar com coragem a questão da corrupção, para o bem do País e o futuro do próprio partido. ¿A podridão que encobre a política está nos transformando em vultos. Precisamos reganhar nossa cara¿, prega. ¿O não à corrupção, não nos iludamos é a condição para o futuro, tanto do País, como nosso.¿
O texto não evita também temas que incomodam os tucanos, como a violência urbana, a precariedade do sistema penitenciário, a força do crime organizado e as privatizações realizadas no seu governo. Sobre o apagão, diz que de fato faltaram investimentos.
FHC também defende a política econômica de sua gestão, a seu ver mal copiada pelos petistas. ¿É descabido aceitar que a política econômica atual seja a continuidade da nossa¿, avalia. ¿Mantiveram o que era óbvio (metas de inflação, câmbio flutuante e superávits primários)¿, prossegue. ¿Mas sem avanços nas reformas.¿ A seguir, o presidente critica os juros altos e a falta de investimentos públicos e, com ênfase, o ¿pacote de bondades¿ lançado por Lula neste ano eleitoral.