Título: Sob pressão, Blair anuncia que deixa o cargo em um ano
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Fonte: O Estado de São Paulo, 08/09/2006, Internacional, p. A11

O primeiro-ministro britânico, Tony Blair, anunciou ontem que deixará o cargo em menos de um ano, mas se recusou a fixar uma data exata. Blair vinha sofrendo forte pressão do seu partido, o Trabalhista, para dizer quando sairá do posto que ocupa há quase dez anos.

"Preferia fazer isso do meu jeito. Mas a próxima conferência do partido nas próximas duas semanas será minha última como líder do partido", disse Blair. O dia da saída será definido "em uma data futura".

No poder desde 1997 - quando rompeu uma hegemonia de 18 anos do partido Conservador -, Blair tem sido visto nos últimos meses como um grande problema para seu partido. A política externa, alinhada com a dos EUA, que culminou com o envio de tropas ao Iraque, em 2003, é vista por muitos trabalhistas como a principal fonte de desgaste.

Ainda em 2003, Blair teve outra dor de cabeça com o suicídio do funcionário do Ministério da Defesa David Kelly. A morte do homem apontado como a fonte que possibilitou a revelação de que a ameaça representada por Saddam Hussein foi exagerada pelo governo agravou a desaprovação à política externa. Os atentados ao sistema de transportes de Londres, em 2005, aumentaram mais as críticas.

O estopim do anúncio de ontem parece ter sido uma briga pelo poder entre o primeiro-ministro e seu ministro das Finanças, Gordon Brown, provável sucessor de Blair. A disputa teve mais um capítulo na noite de quarta-feira quando Blair acusou Brown de chantagem.

O prazo ainda vago anunciado ontem talvez não seja o suficiente para Brown, que havia exigido a saída de Blair perto do Natal e que fosse formado um gabinete conjunto eficaz até um novo líder ser escolhido pelo partido.

A declaração de Blair confirmou o que membros do gabinete vêm insinuando sobre as intenções dele. O anúncio ocorre no momento em que o primeiro-ministro luta para se agarrar ao cargo e impedir a desintegração dos trabalhistas.

Apesar do embate pelo poder, na noite de quarta-feira o próprio Brown se viu pressionado a repudiar o movimento de alguns membros do Parlamento para obrigar Blair a deixar o cargo agora. Downing Street (a residência oficial do primeiro-ministro) afirmou que a renúncia na quarta de Tom Watson, assessor do ministro da Defesa, e de seis assessores parlamentares aconteceu com a aprovação de Brown. Os sete exigiam a imediata saída de Blair.

As reuniões entre Blair e Brown acabaram na tarde de quarta, com o primeiro-ministro rejeitando as condições de Brown para permitir que Blair permanecesse no cargo. Entre elas, um cronograma acelerado para que ele renunciasse na época do Natal . Os partidários de Blair alegaram que Brown também exigiu um endosso da sua candidatura e o repúdio à idéia de um debate sobre o futuro do Partido Trabalhista.

Anatoly Kaletsky, no Times, escreveu que, antes de agosto, Brown teria que "pessoalmente organizar um golpe contra Blair, expondo-se à traição". Segundo Kaletsky, com o anúncio, agora o partido teria "muitas vantagens em expulsar Blair o mais rápido possível".

Um grupo de 15 parlamentares havia enviado uma carta particular ao primeiro-ministro alegando que ele era agora um risco eleitoral. Trechos foram vazados para o jornal The Guardian na segunda-feira.

Na carta, os 15 parlamentares, muitos antes leais membros do baixo clero, descrevem a si mesmos como modernizadores: "Infelizmente, está evidente para nós - assim como para o partido quase inteiro e para todo o país - que, se não houver uma urgente mudança no líder do partido, diminui a probabilidade de que vençamos a próxima eleição. Esta é uma verdade cruel. E é com pesar que dizemos. Mas precisa ser dito. E entendido".

A visão de que Blair deve deixar o cargo em breve é majoritária entre os trabalhistas. Segundo pesquisa da empresa YouGov divulgada ontem, 59% dos membros do partido Trabalhista querem a renúncia.