Título: Rússia limita investigação sobre ex-espião
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Fonte: O Estado de São Paulo, 06/12/2006, Internacional, p. A14
A Rússia colocou os primeiros obstáculos à investigação da morte do ex-espião russo Alexander Litvinenko. O promotor-geral do país, Iuri Chaika, afirmou ontem que possíveis suspeitos russos não poderão ser extraditados para a Grã-Bretanha, em respeito à Constituição russa - ela determina que um cidadão acusado de cometer um crime no exterior deve ser julgado na Rússia. Chaika alertou ainda que os investigadores britânicos, em Moscou desde segunda-feira, só poderão ouvir, enquanto os oficiais russos tomam os depoimentos.
Envenenado pelo elemento radioativo polônio-210, Litvinenko passou mais de 20 dias internado e morreu em 23 de novembro num hospital em Londres, onde era asilado político desde 2000. Ele deixou uma carta póstuma em que acusa o presidente Vladimir Putin por seu envenenamento.
Os atritos entre o ex-espião e o presidente russo remontam a 1998, quando Putin era líder da Agência Federal de Segurança (FSB), sucessora da antiga KGB. Na época, Litvinenko denunciou esquemas de corrupção no serviço de inteligência e revelou ter recebido ordens para executar o milionário russo Boris Berezovski. Litvinenko não só se negou a cumprir a missão, como revelou ao alvo que sua vida estava em risco.
Anos mais tarde, Litvinenko acusou a FSB de executar uma série de ataques a bomba em 1999, que foram atribuídos a rebeldes chechenos e usados por Putin para justificar a guerra contra a república separatista. A acusação está em seu livro Blowing up Russia: Terror from Within (Explodindo a Rússia: Terror de Dentro), de 2002.
PERSONAGENS-CHAVE
Ainda não estava certo ontem se seriam interrogados dois personagens-chave do caso - ambos também ex-agentes russos. Um deles, Andrei Lugovoi, estava hospitalizado para exames, para verificar se havia sido ou não contaminado por radiação. Lugovoi viajou para Londres três vezes no mês anterior à morte de Litvinenko e esteve com ele em quatro ocasiões - uma delas, num hotel central de Londres em 1º de novembro, dia em que se acredita ter ocorrido o envenenamento. Lugovoi diz que eles trataram de negócios.
Indagado sobre se Lugovoi seria interrogado, o promotor-chefe russo jogou a responsabilidade para os médicos: 'Se os médicos permitirem, ele será interrogado.' Em entrevista a uma rede de TV, Lugovoi disse estar muito interessado em se encontrar com os detetives e prometeu cooperar: 'Se eu puder ver a lista de pessoas que eles pretendem interrogar e puder propor outros nomes a ser incluídos, farei isso.'
O outro personagem-chave na Rússia é o ex-agente Mikhail Trepashkin, que cumpre pena de 4 anos por divulgar informações secretas. Segundo Chaika, o depoimento dele não foi solicitado pelos investigadores britânicos e, de todo modo, a conversa não seria autorizada. Em carta divulgada sexta-feira e datada do dia 23, Trepashkin afirma ter alertado Litvinenko, em 2002, de que a FSB montara um grupo especial para matá-lo.
SUSPEITAS
Serviços de inteligência britânicos estão certos de que o envenenamento de Litvinenko foi autorizado pela FSB, segundo reportagem publicada ontem no Times. Fontes de segurança disseram ao jornal que a FSB orquestrou um 'plano altamente sofisticado' e deve ter usado ex-agentes para colocar a operação em prática nas ruas de Londres. A versão foi reforçada ontem por Iuri Felshtinski, amigo de Litvinenko e co-autor de Blowing up Russia.