Título: Apetite pelo risco ainda favorece o Brasil
Autor: Chade, Jamil
Fonte: O Estado de São Paulo, 07/01/2007, Economia, p. B8

O apetite do mercado financeiro internacional pelo risco está favorecendo a situação do Brasil e de outros mercados emergentes como poucas vezes pôde ser observado desde o início da década. A avaliação é dos economistas do Banco de Compensações Internacionais (BIS), conhecido como o banco central dos bancos centrais.

A partir de hoje, o presidente do Banco Central do Brasil (BC), Henrique Meirelles, estará na cidade suíça da Basiléia para reuniões na sede do BIS com os demais presidentes de BCs de todo o mundo. Entre os vários aspectos que debaterá está a situação dos mercados emergentes em 2007.

Em análise feita para o Estado, os economistas da entidade na Suíça apontaram que o risco Brasil está atingindo níveis inferiores a 200 pontos graças, principalmente, ao cenário internacional favorável. Os analistas destacam a situação positiva dos fundamentos da economia brasileira e admitem que o desempenho de vários indicadores no País tem ajudado de forma importante para que os spreads tenham sofrido a queda dos últimos meses.

Mas, para os economistas, apenas a situação interna brasileira não justifica a queda do risco. Segundo eles, a situação dos mercados emergentes é hoje confortável em várias partes do mundo e vem surpreendendo até os mais otimistas.

Na Hungria, por exemplo, nem mesmo os protestos ocorridos em novembro, que levaram a população a pedir a queda do governo, afetaram de forma significativa as perspectivas para os países do Leste Europeu.

Na Tailândia, o golpe de estado no final de 2006 também teve um impacto restrito e a região em pouco tempo voltou a apresentar um desempenho de suas bolsas nos mesmos níveis do período pré-golpe. A única exceção foi a eleição de Rafael Correa, no Equador, que resultou em um aumento do risco do país de forma significativa.

'Existe um apetite ainda incrível pelo risco por parte do mercado', afirmou um economista do BIS. Uma prova dessa disponibilidade de recursos é a facilidade que governos de países emergentes, entre eles o Brasil, estão tendo para captar no exterior com suas emissões de papéis da dívida.

'O Brasil não teve problemas em captar no exterior nem mesmo nos meses próximos da reeleição', constatou um analista do banco. O mercado também teria reagido de forma tímida aos escândalos de corrupção no País. Na Basiléia, todos concordam que essa seria uma situação impensável há quatro anos, na primeira eleição de Luiz Inácio Lula da Silva.

No BIS, os economistas admitem que ainda está na memória dos analistas a turbulência provocada pela vitória de Lula há quatro anos e a incógnita que muitos consideravam que poderia ser a gestão econômica do governo.

Desta vez, porém, Henrique Meirelles chega sem precisar dar garantias, como teve de fazer há quatro anos no próprio BIS. Mas, na Suíça, os banqueiros vão querer saber até que ponto a austeridade fiscal será mantida no segundo mandato de Lula, qual será o grau de independência do BC e, entre outras coisas, se Meirelles permanecerá à frente do banco.

Para os primeiros meses de 2007, as perspectivas são de que a situação dos países emergentes continue positiva, ainda graças à liquidez internacional e o apetite ao risco. Outro fator que deverá contribuir é a desaceleração relativamente suave da economia americana.