Título: Crescer como?
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Fonte: O Estado de São Paulo, 01/01/2007, Notas e Informações, p. A3

Há quatro anos o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tomava posse com o País imerso numa grande dúvida: será que a ala mais radical do partido do qual ele fora fundador e sempre se fizera o maior líder haveria de acompanhá-lo no governo, apoiando suas políticas públicas sem lhe impor obstáculos de natureza ideológica, especialmente no tocante à política econômica? Recorde-se que, para que o programa de governo inicialmente esboçado pelo PT em reunião no Nordeste deixasse de espantar investidores, externos e internos, por seu radicalismo, e para que o candidato Lula ampliasse seu esquema de apoio partidário, se produzira a chamada ¿Carta aos Brasileiros¿. Tratava-se de uma verdadeira profissão de fé na moderação, com garantia de cumprimento de contratos e demais condições civilizadas do pacta sunt servanda.

Logo no início de seu governo, Lula conseguiu livrar-se de seus correligionários radicais, ou porque estes, decepcionados, deixaram o Partido dos Trabalhadores ou porque dele foram expulsos. Sem ter companheiros radicais para responsabilizar pelas frustrações causadas por um governo sem projeto - a não ser a estabilidade da moeda e a distribuição de renda a qualquer custo -, restou a Lula a crítica-desabafo, que repetiria durante toda a sua gestão, contra o que chamou de ¿herança maldita¿ do governo anterior, caracterizada pela inflação prestes a estourar, o aumento substancial do risco Brasil e a instabilidade detectada pelos índices econômico-financeiros. Só que essa ¿herança maldita¿ decorrera, justamente, das apreensões do mercado, dos investidores internos e externos, ante a perspectiva de eleição de Lula, o que indicava que a ¿Carta aos Brasileiros¿, num primeiro momento, não afastara o receio geral de ruptura de contratos e outras extravagâncias. Afinal de contas, não se imaginava que o governo do Partido dos Trabalhadores adotasse uma política econômica contrária à que apregoara por mais de duas décadas e que fosse praticamente idêntica à do seu antecessor - e que o ministro Antonio Palocci se revelasse um exemplo de moderação e bom senso no manejo da economia.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva encontra, agora, circunstâncias bem diversas em sua segunda posse. Depois de todos os escândalos em que o PT e seus aliados estiveram envolvidos, o desprestígio de imagem não atingiu o chefe do governo, a ponto de Lula ter recebido uma portentosa votação em sua reeleição. Embora em termos de aprovação popular Lula esteja bem acima dos partidos, deles necessita para governar - razão por que se dedicou à formação de uma coalizão. Numa verdadeira maratona de reuniões, o presidente tem negociado com líderes e partidos de sua base aliada, tendo em vista a composição de seu novo Ministério - um processo que ainda pode levar cerca de um mês para terminar. Quanto a seu relacionamento com o PT, verifica-se que, se conflitos entre os dois perduram, não trazem a marca ideológica. Quando muito, são disputas em torno de cargos e ocupação de fatias de poder nos Ministérios. Tanto assim que a Comissão Política do PT, cujos membros, em conversas privadas, reclamam a demissão do presidente do Banco Central e a mudança da política econômica, na quarta-feira deixou uma reunião com o presidente Lula sem ter tocado no assunto. Lula disse-lhes, pela enésima vez, que quem manda na política econômica é ele - e com isso cortou o assunto.

O presidente Lula assumirá o segundo mandato com o País em condições bem mais favoráveis do que há quatro anos. A inflação está controlada, o risco Brasil chegou a seu nível mais baixo e a conjuntura econômica internacional é bastante favorável. Mas falta a seu governo o principal. Sem projetos estruturantes, de reformas essenciais, o Brasil continuará marcando passo, sem conseguir acelerar o ritmo de crescimento.

O presidente Lula e sua equipe não conseguiram elaborar o plano para ¿destravar¿ a economia, prometido e adiado quatro vezes. E tudo indica que o plano não passará de um rol de investimentos já conhecidos - e de reduzida eficácia, enquanto persistirem as travas estruturais que condenam o País a um crescimento medíocre. Ora, se o presidente Lula não acredita em reformas, diz e repete que são desnecessárias reformas fundamentais como a da Previdência, o Brasil ficará mais quatro anos esperando o sempre ausente ¿espetáculo do crescimento¿.