Título: Saddam é enforcado em Bagdá
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Fonte: O Estado de São Paulo, 30/12/2006, Internacional, p. A8
O ex-ditador do Iraque Saddam Hussein foi enforcado por volta das 6 horas de hoje em Bagdá (1 hora de hoje pelo horário de Brasília), anunciou a TV iraquiana Al-Hurra, emissora criada e financiada pelos EUA. A execução foi confirmada minutos depois pelo vice-chanceler iraquiano Labeed Abbawi e por um alto funcionário americano citado pelo site do New York Times.
A hora da execução foi combinada entre autoridades iraquianas e americanas. Por volta das 5h30 locais, um clérigo muçulmano chegou ao local para ouvir as últimas palavras do ex-ditador, deposto em abril de 2003 por uma invasão internacional liderada pelos EUA. O local exato da execução de Saddam, que tinha 69 anos, não foi imediatamente divulgado. A TV informou apenas que ocorreu na superprotegida Zona Verde de Bagdá. Exilada na Jordânia, Raghd, filha de Saddam, pediu que o corpo do ex-presidente seja enterrado provisoriamente no Iêmen, ¿até que o Iraque seja libertado e ele possa ser sepultado em seu país¿.
Na terça-feira, o Tribunal de Apelações do Iraque ratificou a sentença que, em novembro, condenou o ex-ditador à morte por enforcamento. Ele, seu meio-irmão Barzan al-Tikriti e o ex-juiz Awad al-Bandar foram considerados culpados pela morte de 148 xiitas na cidade de Dujail em 1982.
Algumas horas antes da execução, um dos advogados de Saddam disse à TV CNN que o ex-ditador havia aceitado seu destino. ¿Ele estava até sorrindo. Acho que estará sorrindo quando for executado¿, disse Najib al-Nuaimi, que se reuniu com Saddam ontem.
Os dias que se seguiram à confirmação da sentença foram marcados por informações desencontradas sobre a data em que Saddam seria enforcado. A lei iraquiana diz que, em casos como o do ex-ditador, ¿a punição deve ser executada dentro de 30 dias partir da data em que o julgamento se tornar final e não apelável¿. Assim, o prazo final para o cumprimento da sentença seria 26 de janeiro.
Mesmo ontem, a hora da execução demorou a ser confirmada. No fim da tarde, uma alta fonte do governo iraquiano disse à Reuters que ¿muitas coisas mudaram nas últimas horas e ele pode ser enforcado esta noite (ontem), mas não é certo¿. Algumas autoridades haviam levantado a possibilidade de que a sentença fosse cumprida apenas na semana que vem, após o término do feriado muçulmano de Eid al-Adha, que começa hoje. ¿Todos os documentos necessários para a execução estão completos e o ex-presidente será executado ao amanhecer (de hoje) ou na quinta-feira, quando acabar a festa de Al-Adha¿, afirmou, horas antes do enforcamento, o deputado Sami al- Askari, ligado ao primeiro-ministro iraquiano, o xiita Nuri al-Maliki.
Ainda à tarde, o chefe da equipe de advogados do ex-ditador informou que as forças dos EUA haviam transferido a custódia de Saddam para os iraquianos. Segundo analistas, era um indício de que o enforcamento não demoraria muito para ocorrer. Mas outras fontes negaram.
Numa última tentativa de evitar o enforcamento, advogados de Saddam entraram à noite com um pedido na Justiça dos EUA para tentar bloquear a transferência da custódia do ex-ditador às autoridades iraquianas. A petição foi negada.
Na quinta-feira, segundo Badee Izzat Aref , outro advogado de Saddam, o ex-ditador recebeu a visita de dois de seus três meio-irmãos. De acordo com uma fonte do Ministério da Defesa do Iraque que presenciou o encontro, Saddam teria entregado seu testamento a um dos irmãos.
Preocupados com a reação que a execução de Saddam pode provocar na população iraquiana, os EUA avisaram que suas forças militares no Iraque estão preparadas para enfrentar uma eventual onda de violência. ¿As forças americanas estão obviamente em alto estado de alerta por causa do ambiente em que atuam no país e também por conta da situação de segurança do momento¿, disse um porta-voz do Pentágono.
Ontem, mais três militares americanos morreram em confrontos ocorridos em Bagdá e arredores. Com isso, o mês de dezembro configura-se como o mais sangrento de 2006 para os militares dos EUA no Iraque, com 106 mortos. Desde o início da guerra, em março de 2003, o total de militares americanos mortos no país do Golfo Pérsico já alcança 2.993.