Título: Multinacionais brasileiras
Autor: Ming, Celso
Fonte: O Estado de São Paulo, 30/12/2006, Economia, p. B2
Não dá para tirar impacto a dois acontecimentos econômicos deste ano.
Em 2006, o recentemente superendividado (e caloteiro) Brasil passou a emprestar bilhões de dólares para países ricos . E foi o ano em que os investimentos de empresas brasileiras no exterior ultrapassaram os investimentos estrangeiros no Brasil.
Primeiro, aos fatos. As reservas externas fecharam o ano em torno dos US$ 85 bilhões, volume que ultrapassa a dívida do setor público não financeiro em moeda estrangeira (hoje de US$ 74,8 bilhões). Isso significa que o Brasil é credor líquido em dólares. Como as reservas estão quase todas elas aplicadas em títulos de dívida de países avançados, especialmente dos Estados Unidos, segue-se que o Brasil, país reconhecidamente pobre, passou a emprestar dinheiro para países ricos. Como o Banco Central seguirá amontoando reservas, o Brasil continuará emprestando recursos para os Estados Unidos.
O normal seria o contrário; seria rico emprestar dinheiro e pobre tomar dinheiro emprestado. No entanto, o sistema internacional de obrigações está tão transtornado com déficits de países ricos e superávits de países pobres que o resultado é esse mesmo, espante-se quem quiser.
O segundo fato é o de que os investimentos das empresas brasileiras no exterior devem fechar o ano na casa dos US$ 26 bilhões. Enquanto isso, os estrangeiros terão injetado no Brasil pouco mais de US$ 18 bilhões. É a primeira vez que isso acontece desde que se começaram a fazer estatísticas sobre o comportamento da economia brasileira. A maior tacada aconteceu em novembro, quando a Vale do Rio Doce fechou a compra da canadense Inco, mineradora de níquel, por US$ 18 bilhões. Mas a Vale não está sozinha nisso. Além dela e dos grandes bancos brasileiros, estão despejando dólares no exterior Petrobrás, Votorantim, Gerdau, Embraer, AmBev, Odebrecht, WEG, Marcopolo, Natura, Multibrás, Embraco, Azaléia, Alpargatas... e a lista é enorme.
Muita gente torce o nariz para investimentos brasileiros no exterior. Argumenta que isso é desindustrialização, exportação de empregos e renúncia a desenvolvimento nacional. Outros dizem que o Brasil está indo pelo perigoso caminho do subimperialismo, comportamento que tanto se atacou nas empresas de capital estrangeiro no Brasil. A maioria tem saudades do regime de substituição de importação, quando havia reserva de mercado, subsídios à vontade, índice de conteúdo local e política de preços favoráveis à empresa brasileira.
Mas isso seria o mesmo que pedir a volta do futebol brasileiro dos anos 60, sem levar em conta que o esporte moderno exige muito mais preparo físico, velocidade, marcação e evolução tática. Enfim, se hoje jogassem como então, os craques do passado seriam massacrados em campo.
Esse movimento das multinacionais brasileiras é o resultado lógico do desenvolvimento da empresa nacional num mundo em que se intensifica o processo de globalização. Sobre isso, acaba de sair uma coletânea organizada por André Almeida, editada pela Campus (Internacionalização de Empresas Brasileiras). Na apresentação, o embaixador e ex-ministro Rubens Ricupero explica que ¿se torna crescentemente anacrônico insistir em aplicar critérios político-nacionais a uma economia que é a cada dia mais internacionalizada¿. Diante do baixo crescimento econômico, o mercado interno não é suficiente para garantir a sobrevivência de um número cada vez maior de empresas brasileiras.
Muda, também, a geografia da luta por vantagens comparativas e fatias de mercado: ¿A competição maior da Gerdau não é mais com a Companhia Siderúrgica Nacional, mas com a Arcelor; a da Embraer é com a Bombardier; a da Petrobrás, com as majors do petróleo; a concorrente principal da Odebrecht não é a Andrade Gutierrez, mas a Morrison Knudsen; a da AmBev não é nenhum cervejeiro nacional, mas os gigantes mundiais.¿
Os partidos políticos parecem atarantados com essas novidades e não conseguem definir um novo modelo em defesa da indústria brasileira. O próprio PT, que se julga mais lúcido, ainda repete que o desenvolvimento econômico brasileiro deve se basear, na maior parte, no ¿crescimento do mercado interno de massas¿.
O mundo mudou e os brasileiros vão engolindo tudo como fatos consumados, sem capacidade de definir um rumo próprio. Quem não sabe não faz a hora; só espia acontecer.