Título: A incógnita do segundo mandato
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Fonte: O Estado de São Paulo, 31/12/2006, Notas e Informações, p. A3
A coincidência entre o ano-novo e a posse dos governantes brasileiros agrega ao evento político, já de si festivo, o estado de espírito característico da virada do calendário: aos votos de saúde e prosperidade que as pessoas trocam entre si se soma a confiança, ou no mínimo a esperança, em dias também melhores para os governados. Nesse clima de confraternização geral, manifestações de ceticismo em relação aos empossados definitivamente não são de bom-tom. Suspendam-se, pois, os juízos críticos que se possam fazer dos atributos do presidente reeleito e, por extensão, as inquietações sobre o quadriênio que amanhã se inicia. Afirme-se, em contrapartida, a expectativa - que há de ser comum a toda a sociedade - de que o reeleito Luiz Inácio Lula da Silva justifique, a posteriori, a aprovação espetacular ao seu primeiro governo nas pesquisas divulgadas na semana anterior ao Natal.
Aos seus resultados se aplica, agora com inteira pertinência, o bordão lulista do 'nunca antes neste país'. De fato, nenhum outro presidente brasileiro chegou ao fim de um mandato desfrutando desse grau de popularidade. No segundo turno de 29 de outubro, votaram em Lula 57% dos eleitores que foram às urnas. Pouco mais de um mês depois, 70% dos entrevistados pelo Ibope aplaudiram o seu desempenho no Planalto. 'Lularam', portanto, muitos dos que não queriam tê-lo ali mais quatro anos, fazendo empalidecer as diferenças regionais, de nível de renda e de grau de escolarização que separaram os eleitores do presidente e os do seu adversário. O prestígio sem precedentes do reeleito deriva antes da maciça identificação popular com a sua figura do que da situação objetiva do País.
É surpreendente o contraste entre a verdadeira maré de júbilo que engolfou quase toda a população - para 79% dos entrevistados 2006 foi um ano bom ou muito bom, e para 89% deles 2007 também o será - e o fato de que este ano a economia brasileira só não cresceu menos do que a haitiana, na América Latina. E, o que torna o apoio a Lula ainda mais extravagante, o PIB cresceu muito menos do que o governo prometia até a undécima hora. Daí a expectativa de que ele consiga justificar a posteriori a consagração com que reassume. Em outros tempos se diria que o presidente está 'com a faca e o queijo na mão'. A oposição perdeu o eixo programático e a histamina política de que não quis ou não soube tirar proveito no auge do escândalo do mensalão. E o Congresso Nacional chegou ao zênite da desmoralização.
Semanas atrás, Lula disse que não devia a sua reeleição a ninguém. É uma verdade a deplorar. A sua autonomia em relação ao sistema partidário - a começar do PT - ameaça danificar os freios e contrapesos políticos de que o regime presidencialista depende (além daqueles outros, institucionais) para não engendrar uma presidência imperial. Nela, o supremo dirigente, do alto de sua hegemonia, é tentado a fazer o que bem entender. Se à fortuna da sua ascendência pessoal, Lula conseguir adicionar a virtù de acomodar satisfatoriamente nos camarotes do Executivo os heterogêneos parceiros do seu governo de coalizão, só faltará emplacar os novos dirigentes do Legislativo, e escalar um colegiado confiável de líderes da sua ampla base parlamentar, para ditar o jogo ao seu modo, ao menos no curto prazo.
Resta saber para quê. Pelo que tem dito desde a reeleição, Lula concebe a sua segunda fase voltada para três grandes objetivos: crescimento econômico, redução das desigualdades sociais e regionais e educação de qualidade. A legitimidade dessas metas é tão óbvia quanto nebulosa permanece a percepção dos meios a serem escolhidos para alcançá-las. A rigor, o lulismo não fica a dever aos adversários em matéria de perplexidade quanto aos rumos a seguir. O que não deixa de ser irônico, ao terminar um ciclo de governo em que situação e oposição concordavam em relação ao essencial e que no plano dos conceitos não tinha mistério: estabilização, responsabilidade fiscal, câmbio flutuante, metas inflacionárias. São, evidentemente, condições necessárias, mas insuficientes para o destravamento de um país que dificilmente no ano que entra conseguirá acelerar o seu atual ritmo de crescimento.
Aludiu-se acima à hipótese de um presidente livre para fazer o que bem entender. À parte a certeza de que tamanha desenvoltura é sempre indesejável, Lula sobe de novo a rampa sem que se vislumbre o que, efetivamente, ele bem entenderá fazer.