Título: Desconfiado, presidente diz que pode comprar briga com área econômica
Autor: Rosa, Vera
Fonte: O Estado de São Paulo, 31/12/2006, Nacional, p. A5

Quinze quilos mais magro, cabelos e barba mais grisalhos e calejado pela sucessão de crises, o presidente que vai tomar posse amanhã, pela segunda vez consecutiva, é um homem muito diferente daquele que subiu a rampa do Palácio do Planalto há exatos quatro anos. Sem os escudeiros que o acompanharam por mais de duas décadas, Luiz Inácio Lula da Silva perdeu um bom pedaço das ilusões: é agora um político desconfiado, que centraliza as decisões e está disposto a comprar briga até com a equipe econômica para reforçar, no novo mandato, o estilo 'pai dos pobres' de administrar.

Embalado por cerca de 58 milhões de votos, Lula encarnou tanto o figurino criado sob medida para o ex-presidente Getúlio Vargas que hoje prefere dizer que vai 'cuidar' da população. 'Nos momentos mais difíceis, eu aprendi a conhecer quem são os meus amigos', afirma.

Aos 61 anos, o primeiro operário que chegou à Presidência julga ter uma dívida com os mais humildes depois de ser reconduzido ao Planalto com forte apoio popular em meio à avalanche de denúncias de corrupção que desbotaram a bandeira da ética petista. Quer, por isso, imprimir fisionomia mais social ao seu governo.

No auge da crise do mensalão, no ano passado, quando a oposição o ameaçava até com impeachment, Lula parecia acuado e na defensiva. Um dia reagiu. 'Não pensem esses caras que vão me tirar o mandato. Eles não sabem o que é a minha relação com o povo', esbravejou. Dirigentes dos movimentos sociais foram então chamados a Brasília para organizar a tropa do presidente. Mas a oposição, sem respaldo, recuou.

Ao contrário do que ocorria em sua estréia no Executivo, em 2003, quando o então ministro da Fazenda, Antonio Palocci, puxava o freio, Lula não aceita mais os argumentos de que não pode gastar porque as contas não fecham. 'Nós vamos fazer, mais uma vez, contenção de gastos em cima dos pobres?', perguntou ele no último dia 23, ao participar da cerimônia antecipada de Natal com catadores de papel, em São Paulo. 'Não vamos fazer. Não foi para isso que eu fui eleito.'

Aos poucos auxiliares que o alertam sobre os perigos das tentações do segundo mandato, o presidente não esconde a irritação. 'Deixa a elite criticar', diz. 'Hoje eu já sei onde as coisas emperram.' Repete como mantra que é preciso 'destravar' as amarras do crescimento. Até agora, porém, não apresentou as soluções. Com o impacto de R$ 1,1 bilhão provocado pelo aumento do salário mínimo para R$ 380 e a correção na tabela do Imposto de Renda, ele mandou a equipe refazer as contas do pacote que prevê desoneração de investimentos em obras de infra-estrutura, como estradas e portos.

Teimoso e obsessivo, Lula anda com uma pasta recheada de tabelas que comparam o poder de compra do mínimo desde que foi instituído, em 1940, com a evolução dos índices inflacionários. A qualquer comentário sobre o pífio crescimento em seu governo, ordena ao chefe de gabinete, Gilberto Carvalho: 'Me dá aqui essa pasta pra gente mostrar.' Nem o ex-presidente Juscelino Kubitschek (1956 a 1961), seu ídolo, escapa do diagnóstico desolador sobre a combinação dos indicadores macroeconômicos por não ter conseguido controlar a inflação.

DIABO

'Se é verdade que o diabo veste Prada, ele também mora nos detalhes', brinca o ministro das Relações Institucionais, Tarso Genro, ao mencionar as infinitas cobranças de Lula e os sucessivos adiamentos do pacote de investimentos. 'Tremei, ministros: depois de quatro anos, o presidente está se tornando muito mais exigente.'

Em conversas reservadas, amigos de Lula preocupam-se com sua tendência de apostar no próprio poder de convencimento para fechar acordos em todas as áreas: da economia à negociação com os partidos para o governo de coalizão. Observam que o método não só expõe demais o presidente como embute riscos e pode pôr o governo em maus lençóis.

Na seara política, por exemplo, a base aliada em frangalhos já escancarou o racha ao lançar dois candidatos à presidência da Câmara: os deputados Aldo Rebelo (PC do B-SP), candidato à reeleição, e o líder do governo, Arlindo Chinaglia (PT-SP).

'É preciso destravar o PT, mas eu não consigo controlar o partido', reclama Lula, que chegou a manifestar preferência por Aldo, sem impedir, no entanto, o lançamento de Chinaglia. Apesar dos salamaleques com o PMDB e da remontagem do Conselho Político, o presidente ainda não conseguiu soldar a base, ávida por cargos.

Na prática, desde a crise que fez desabar a cúpula do PT e provocou um rastro de baixas na Esplanada, Lula passou a assumir a coordenação do governo. Não foi só: restringiu o seu círculo de amigos e o hábito de delegar tarefas. Consulta muitos, mas decide tudo sozinho.

A mudança começou durante a agonia do chefe da Casa Civil, José Dirceu, o poderoso ministro que domou o PT por oito anos, comandou a campanha de 2002 e foi abatido em junho do ano passado. As quedas que vieram depois, principalmente a de Palocci, aguçaram seu interesse por áreas que ultrapassam as fronteiras políticas.

'Lula sempre foi um líder de massas, que falava para a multidão e tinha alguém para reger a orquestra atrás dele. Foi assim no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo, no PT e no governo', compara o deputado Luiz Eduardo Greenhalgh (PT-SP), seu amigo de longa data. 'Isso mudou e, agora, sua ingerência pessoal será mais forte.'

Na sexta-feira, o presidente era um homem alegre. 'Hoje é o último dia útil desse mandato. Deus seja louvado!', comemorava Gilberto Carvalho, um ex-seminarista, nos corredores do Planalto. 'Há quatro anos eu estava tenso, com medo do que ia acontecer. Hoje sou sobrevivente de uma guerra que parecia perdida', relembrou Lula, dizendo-se mais leve não só no peso - como no estado de espírito.

Sem sucessor à vista depois que Dirceu e Palocci, os dois generais da equipe, caíram em desgraça, o presidente aposta no distensionamento das relações com a oposição sob o argumento de que não será mais candidato, em 2010. 'Mas o senhor pode ser em 2014', retrucou um ministro. Lula tentou disfarçar o interesse longínquo: 'Não, eu vou estar muito velho.' Diante do ar de surpresa do jovem auxiliar, ele não se conteve. 'Meu filho, quando a gente passa dos 60, depois de cinco campanhas, os anos passam muito rápido. Você nem imagina quanto...'. Ninguém acreditou.