Título: Para professor, Lula confunde os vários Getúlios
Autor: Manzano Filho, Gabriel
Fonte: O Estado de São Paulo, 31/12/2006, Nacional, p. A12
O economista e professor Marcelo de Paiva Abreu, do Departamento de Economia da PUC-Rio, chama a atenção para um problema na estratégia de Lula de se parecer com seu inspirador: é que 'há muitos Getúlios na história e Lula faz confusão entre eles'.
O atual presidente, segundo o economista, exalta o Getúlio presidente nos anos 50, o defensor dos miseráveis contra as elites liberais, e não conta que as obras que beneficiaram esses brasileiros ocorreram num período em que ele foi ditador, perseguiu implacavelmente adversários e flertou com o nazismo e o fascismo. Foi durante o Estado Novo, entre 1937 e 1945, que surgiram na vida brasileira a CLT, o salário mínimo, a Justiça do Trabalho, grandes empresas como a Vale do Rio Doce, a Cia. Siderúrgica Nacional, a Fábrica Nacional de Motores, o sindicalismo urbano.
Paiva Abreu faz outra comparação: enquanto Lula não dispõe de quadros nem de estratégia coerente para preencher seu primeiro escalão, Getúlio saiu-se muito bem nesse desafio, convocando planejadores como Jesus Soares Pereira e Rômulo de Almeida. Mas ele lembra, também, que Getúlio presidente montou uma uma equipe esquizofrênica, tendo um conservador como Horácio Lafer no Ministério da Fazenda e um desenvolvimentista, Ricardo Jafet, no Banco do Brasil. 'Um tentava segurar, outro abria créditos para a produção'.
José Murilo põe a obra de Getúlio numa perspectiva histórica: até a Segunda Guerra Mundial, iniciada em 1939, o projeto era 'recuperar o poder de fogo do governo federal, perdido na Primeira República'. Em seguida, Getúlio iniciou um projeto nacionalista de industrialização acelerada e chamou os trabalhadores para a cena política. Nos anos 50, como presidente, radicalizou o nacionalismo e o apelo aos trabalhadores.
O processo de Lula é bem diferente, ressalta o historiador.Se havia um projeto de País em seu pensamento, 'ele desmoronou no primeiro mandato, frente ao pragmatismo que o levou a manter a política macroeconômica do governo anterior e, ao mesmo tempo, cortejar o povo com políticas sociais muito ampliadas'. Essa contradição se agrava porque, como assinala Maria Celina d'Araújo, o Executivo é hoje um poder submetido a mais controles do que nos anos 40 ou 50 do século passado. 'Os limites de um presidente agora são dados institucionalmente', diz ela, exemplificando com a fiscalização exercida pela da mídia quando se falou da criação da Ancinav e do Conselho Nacional de Jornalismo.
E o tempo joga contra o atual presidente, adverte Villa. 'Ele não consegue fazer a economia crescer porque não tem projeto nem quadros competentes'. Seu segundo governo 'vai ser tão ruim quanto o primeiro, talvez pior, porque depois das eleições municipais de 2008 ninguém mais vai querer saber dele'. José Murilo completa: com um PT enfraquecido e uma base parlamentar conservadora, Lula enfrentará um duro teste de liderança e habilidade. Terá de 'enfrentar as pressões reformistas de seu público e manter a política distributivista para não desapontar o povo. E além, disso, aplacar uma classe média massacrada por impostos'.