Título: Processo de estatização fracassou há 31 anos no país
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Fonte: O Estado de São Paulo, 11/01/2007, Internacional, p. A10
Como se a história, ou a economia, andasse em círculos, as medidas anunciadas pelo presidente Hugo Chávez reproduzem hoje uma situação muito semelhante à que viviam os venezuelanos há 31 anos. Foi em janeiro de 1976, quando presidia o país o líder da Acción Democrata, Carlos Andres Peres, que um processo de nacionalizações foi também iniciado.
Na ocasião, foram estatizadas as áreas de petróleo e de ferro - assim como hoje se anuncia a estatização de telefonia, energia e gás. Era 'uma linha defensiva contra o capital internacional', dizia o próprio presidente. Surgia a Petroleos de Venezuela S. A. (PDVSA), para controlar toda a indústria petrolífera. Uma empresa já existente, a CVG Ferrominera, ficou com a produção de ferro, bastante promissora, na área do rio Orinoco. 'Se setores importantes ficarem nas mãos da empresa privada, esta não terá condições de conseguir os capitais indispensáveis ao seu desenvolvimento', dizia o presidente.
A experiência produziu os frutos típicos da junção de um Estado centralizador com excesso de dinheiro, garantido pelas seguidas altas do preço do petróleo. O que se anunciava como defesa do interesse nacional contra multinacionais poderosas desandou em controle de novas áreas. Aos poucos, daqui e dali, estavam nas mãos do governo coisas como redes de hotéis, fazendas de cana-de-açúcar e bancos falidos.
Ironicamente, o mesmo Peres pagou o preço de suas decisões dos anos 70. No seu segundo mandato presidencial, 15 anos depois, ele recebeu uma Venezuela mergulhada numa economia artificial, sem um sistema de custos ou de preços adequado nem competitividade. Ao tentar consertar, fez a sociedade pagar um alto preço. A moeda, o bolívar, que valia mais que o dólar, foi desvalorizado. Investimentos sumiram. O PIB caiu 8% em 1989, o desemprego atingiu picos insuportáveis. As reservas encolheram para US$ 300 milhões. Programas assistenciais foram criados às pressas para quase metade da população da Venezuela.
Veio à cena, nesse processo, a 'apertura petrolera', que trazia de volta capitais e gerenciamento privados na indústria do petróleo. Uma segunda conseqüência dessa correção foi o 'Caracazo', um gigantesco e violento protesto dos pobres e desempregados de Caracas contra a fome e a miséria. Mas Peres resistiu, para levar a Venezuela de volta a uma situação 'onde as coisas voltassem a valer o que deviam valer'.
Numa autocrítica feita nessa segunda presidência - que terminou com seu impeachment em 1994, por uso indevido do dinheiro público - o presidente lamentou o 'excesso de estatismo' dos anos 70 e 80. Ele levou a 'uma hipertrofia do Estado' na qual 'todos os preços estavam subsidiados e o petróleo pagava tudo'. Três décadas depois, o petróleo ainda paga tudo. Por exemplo, 80% dos alimentos, que são importados.