Título: Cumplicidade por omissão
Autor:
Fonte: O Estado de São Paulo, 14/01/2007, Notas e Informações, p. A3

Se alguma dúvida ainda pudesse existir a respeito das intenções do coronel Hugo Chávez, ela se dissipou com os rumos anunciados pelo autocrata para a Venezuela, na inauguração do seu terceiro mandato. Os aspectos econômicos do ¿socialismo do século 21¿ que ele prometeu implantar nem de longe têm a gravidade das reformas políticas que anunciou. Chávez não ilude ninguém. Desde 1998, quando foi eleito pela primeira vez, vem anunciando que seu objetivo é acabar com a democracia representativa venezuelana, contra a qual, três anos antes, havia tentado um golpe militar. Em 1999, promoveu uma profunda reforma da Constituição, reunindo poderes inéditos nas mãos do presidente da República e abrindo caminho para permanecer no poder, no mínimo, até 2013. Mas isso não era o bastante.

Chávez sabe que os ditadores sem disfarces não têm mais aceitação e lugar no mundo globalizado. Daí se utilizar das imperfeições das instituições democráticas venezuelanas que lhe permitem tornar-se um ditador de fato, sem violar a letra das leis e da Constituição. Hoje, controla os governos provinciais, exceto dois, tem o controle absoluto do Judiciário e, graças a uma decisão errada da oposição, todos os membros da Assembléia Nacional são seus partidários.

Nessas condições, não lhe será difícil completar a obra. Entre 70% e 80% da economia nacional já é controlada pelo Estado e o setor privado nunca foi forte na Venezuela - o que significa que não encontrará grandes óbices internos para estatizar os meios de produção. E a presidente da Assembléia Nacional, Cilia Flores, que lhe prometeu a aprovação da ¿Lei Habilitante¿, que lhe dará poderes para governar por decreto, foi por ele nomeada coordenadora da ¿grande reforma constitucional¿, que entre outras coisas autorizará a reeleição sem limite de vezes do presidente da República.

Quando se completar esse ciclo golpista, o coronel Hugo Chávez terá condenado a Venezuela a voltar mais de meio século no tempo, revivendo a fase mais retrógrada do militarismo latino-americano.

É bom que não haja ilusões. Hugo Chávez não está tentando implantar um socialismo de face renovada, como se fosse possível evitar repetir os erros que levaram o socialismo real à ruína, onde quer que tenha sido instalado. Suas invocações de Marx, Lenin, Gramsci e Cristo - ¿o maior socialista da história¿ - nada mais são do que uma mixórdia ideológica, da mesma natureza patética do juramento que fez ao assumir o terceiro mandato. O que ele quer é açambarcar completamente o poder, tornando-se presidente vitalício, ou seja, um ditador sem disfarce, assentado na riqueza do petróleo.

E, para atingir esse objetivo, é implacável com quem dele discorda. Norberto Ceresole, o ideólogo argentino que ensinou a Chávez os fundamentos do populismo e o valor da instituição militar para a conquista e manutenção do poder político - e depois foi preso e expulso da Venezuela por fazer reparos à conduta do líder -, no final da vida dizia que seu pupilo não tinha ideologia, a não ser a do poder pelo poder. José Vicente Rangel, que há duas semanas era o segundo hierarca do regime bolivariano - depois de fazer as vezes de pai adotivo e mentor de Chávez -, foi removido da vice-presidência da República porque não apoiou com entusiasmo a decisão do chefe de se tornar presidente vitalício e se opôs à idéia da formação do partido único. Com Rangel foram afastados três ministros, todos substituídos por antigos companheiros de quartelada de Chávez, um deles irmão do caudilho.

O projeto de Chávez requer um Estado totalitário sob comando pessoal do presidente - que passa a encarnar a vontade popular. Por caminhos diferentes, portanto, Chávez chega aonde Fidel Castro começou. O seu regime bolivariano se aproxima cada vez mais do modelo cubano, como mostra seu discurso de posse que durou duas horas e quarenta minutos.

O governo Kirchner já percebeu que a aventura bolivariana terá conseqüências nefastas para a região e começou a se afastar de Hugo Chávez - apesar do apoio financeiro que a Argentina recebeu nos últimos anos. Mas o governo Lula - que nada deve a Chávez, a não ser desaforos - insiste em se comportar como se a construção da ditadura bolivariana - em fase de acabamento - não seja assunto que afete diretamente os interesses do Brasil. A cumplicidade por omissão, nesta altura, pior que um erro, é uma burrice.