Título: Uma Alca sem Mercosul
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Fonte: O Estado de São Paulo, 15/01/2007, Notas e Informações, p. A3

Os Estados Unidos poderão criar uma Alca sem o Mercosul, dividindo as Américas em dois blocos. Um deles incluirá países com acesso preferencial aos mercados da maior economia do mundo e todas as vantagens daí decorrentes, como a atração de investimentos. O outro bloco será formado por Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai, Venezuela e Bolívia, se uruguaios e paraguaios não tratarem de escapar da armadilha. Quem não escapar ficará sujeito aos caprichos políticos do venezuelano Hugo Chávez, atualmente em campanha para se tornar presidente vitalício.

O roteiro para a formação do bloco hemisférico liderado pelos Estados Unidos está num artigo publicado segunda-feira pelo Wall Street Journal. Seu autor, Robert Zoellick, foi representante dos Estados Unidos para o Comércio Exterior e, depois, secretário-adjunto de Estado. Hoje é vice-presidente internacional do banco de investimentos Goldman Sachs.

Zoellick propõe um trabalho em duas etapas. Na primeira, seria formada uma Associação dos Acordos Americanos de Livre Comércio. Dela participariam todos os países com os quais os Estados Unidos celebraram acordos desse tipo. Desde o Canadá até o Chile, seriam 12, supondo-se que o Congresso ratifique os pactos assinados com Peru, Colômbia e Panamá. Poderiam juntar-se ao grupo os países da Associação Comercial da Bacia Caribenha.

Na etapa seguinte, os membros da associação poderiam discutir uma costura geral de todos esses acordos, mas para isso seria preciso pedir mais uma autorização do Congresso. Isso completaria uma ampla integração comercial com regras comuns para todos os participantes - uma versão restrita da Área de Livre Comércio das Américas (Alca).

Mas a primeira etapa já seria suficiente, segundo a argumentação de Zoellick, para estreitar a articulação econômica e política entre os participantes dos vários acordos com os Estados Unidos. Agências financeiras americanas poderiam apoiar programas de investimento em infra-estrutura e em modernização institucional. O Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) também poderia ser envolvido.

Ao propor a articulação dos acordos de livre-comércio, o governo americano, segundo Zoellick, daria uma resposta às lideranças populistas em ascensão na América Latina.

Ele se refere aos líderes populistas como pied pipers, figuras semelhantes ao flautista de Hamelin, que, segundo a fábula, atraiu os ratos com sua música e os lançou num rio. Esses encantadores das massas - ele não cita nomes - ¿tiram vantagens de frustrações genuínas, especialmente em comunidades indígenas, de pessoas que não conseguiram subir a escada das oportunidades¿, segundo o artigo. ¿Não deveríamos¿, escreve Zoellick no artigo, ¿deixar esses populistas conduzir o debate.¿

Não está claro se o artigo expressa apenas opiniões e sugestões de Zoellick, ou se ele pôs em circulação idéias de um grupo com interesses políticos e empresariais - talvez do próprio governo. Não seria a primeira vez que um ex-funcionário de alto nível prestaria um serviço desse tipo. Seja qual for a fonte das propostas, um ponto parece evidente: o ex-chefe dos negociadores comerciais dos Estados Unidos, hoje executivo de um grande banco, não investiria tempo, energia e prestígio na elaboração de uma agenda política sem chance de merecer apoio da maioria da opinião pública.

Se a maioria democrata não estiver demasiadamente ocupada com sua pauta protecionista, as sugestões de Zoellick poderão ter desdobramentos políticos. Quem mais se esforçou pela formação da Alca foi um presidente democrata, Bill Clinton.

Não há, no artigo publicado pelo Wall Street Journal, nenhuma referência aos países sul-americanos que mais contribuíram para enterrar o projeto da Alca - Brasil e Argentina, sob o mandato dos governos dos presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Néstor Kirchner. Estes ficam, simplesmente, fora do jogo proposto por Zoellick. Neste momento, ele só se mostra preocupado com os líderes populistas em ascensão, e isso é compreensível. Eles têm-se mostrado, na América do Sul, os mais capazes de influenciar a pauta regional, neutralizando o peso de países mais desenvolvidos economicamente, como o Brasil. Zoellick mostra que conhece bem a realidade sul-americana.