Título: Greve ameaça governador de La Paz
Autor: Nossa, Leonencio
Fonte: O Estado de São Paulo, 19/01/2007, Internacional, p. A11

Mesmo com o pedido de trégua feito pelo presidente da Bolívia, Evo Morales, líderes de movimentos sociais do país decidiram convocar, para a próxima segunda-feira, uma greve geral contra o governador de La Paz, José Luis Paredes, um opositor que quer mais autonomia de seu departamento (estado) em relação ao governo Evo.

A greve foi convocada pela Fejuve, a federação de associações de moradores das comunidades de El Alto, uma cidade de cerca de um milhão de habitantes. Só nos últimos quatro anos, a entidade derrubou dois presidentes, além de parlamentares e governadores.

Em entrevista ao Estado, o principal líder da Fejuve, Nazario Ramírez, disse que não há mais espaço para negociação. 'A responsabilidade única por qualquer morte é de José Luis Paredes', afirmou. 'Vamos tomar as instalações de prédios públicos e bloquear as estradas dos dez distritos de El Alto.' Em assembléia na madrugada de quarta para quinta-feira, a Fejuve aprovou um documento exigindo a renúncia do governador de La Paz, departamento onde está localizada a cidade de El Alto. Nem a decisão dos sindicalistas de Cochabamba, de desocupar o palácio do governador Manfred Reyes Villa, na quarta-feira, e acabar com protesto semelhante, fez os líderes de El Alto desistirem da greve geral contra Paredes.

A Fejuve tinha dado um prazo de 48 horas para Paredes renunciar. O prazo venceu ontem, quando a assembléia de 362 delegados decidiu bloquear no dia 22 todas as estradas que dão acesso a El Alto. Na cidade, a 4.100 metros de altitude - 450 metros a mais que a vizinha La Paz -, fica o principal aeroporto do país.

Os líderes de mineiros, moradores e produtores de coca incluíram no documento com a resolução da assembléia uma crítica às empresas de comunicação da Bolívia. A imprensa não estaria sendo transparente ao tratar dos protestos contra a autonomia dos departamentos.

A 12 quilômetros de El Alto, o clima era de tranqüilidade na sede do governo departamental, em La Paz. Paredes pediu apenas um pequeno reforço de policiais. Em entrevista coletiva, ele disse que Ramírez é um radical que vai fracassar. 'A greve marcada para segunda-feira vai ser um fracasso absoluto', avaliou. Paredes criticou a proposta de Evo de realizar referendos para decidir a saída ou não de autoridades do cargo. Foi essa proposta, aceita pelo governador de Cochabamba, que acabou com a crise no outro departamento. Ele também acusa o presidente de estar por trás da onda de manifestações.

A Fejuve tem tradição em retirar autoridades dos palácios. Em 2003, a entidade promoveu manifestações no centro de La Paz, que resultaram na renúncia do então presidente Gonzalo Sánchez de Lozada. Dois anos depois, conseguiram reunir cerca de 400 mil pessoas em El Alto num protesto contra o sucessor de Sánchez de Lozada. Mesa também abandonou o poder.

Ramírez afirmou que o governador de La Paz mente ao acusar Evo de insuflar o movimento. 'Desde agosto não converso com ele', afirmou o líder.

Ele avalia que Paredes erra ao minimizar o movimento. 'O governador não deveria nos tratar como os selvagens de El Alto', completou. Ramírez salientou que não recebeu oficialmente nenhum pedido de trégua de Evo. Mas disse que os membros da federação dificilmente aceitariam o pedido do presidente.