Título: Investimentos em gás
Autor:
Fonte: O Estado de São Paulo, 24/01/2007, Notas e Informações, p. A3

A Petrobrás anunciou, sexta-feira, a elevação do seu orçamento de investimentos deste ano, de R$ 47,4 bilhões para R$ 54,9 bilhões. Grande parte desse aumento - R$ 3,3 bilhões - será destinada ao gás natural, o que se justifica pela escassez do insumo, tanto no Nordeste - onde as termoelétricas das quais a estatal é sócia estão paralisadas - como na Região Sudeste, onde as empresas em geral não conseguem comprar o gás necessário para atender aos seus investimentos.

O acréscimo de recursos previsto pela estatal será destinado ao Plano de Antecipação da Produção de Gás (Plangás), cuja meta - ora revista - é ampliar a produção em 40 milhões de m³/dia até 2008 e 55 milhões de m³/dia até 2010.

A maior parcela dos recursos será aplicada na exploração e produção, com destaques para o desenvolvimento do Campo de Mexilhão, na Bacia de Santos; do Campo de Golfinho, no Espírito Santo; e na unidade de processamento de Cacimbas, também no Espírito Santo. Antes, a Petrobrás havia se referido também a uma unidade em Caraguatatuba, em São Paulo, além da antecipação dos projetos de Jabuti e Marlim Sul, da planta piloto de produção no Campo de Bonito e novos projetos no Parque das Conchas.

Com investimentos adicionais, a Petrobrás dará prioridade aos gasodutos Urucu-Coari-Manaus, Sudeste-Nordeste, e Campinas-Rio. A estatal já estava comprometida com investimentos maciços na Bacia de Santos, onde grandes jazidas foram descobertas, há três anos. Seu plano de investimentos para 2007/2011 - agora absorvido pelo PAC - prevê a expansão da produção de gás do Campo de Merluza.

Mas, agora, a estatal parece determinada a privilegiar o envio de gás para o Nordeste, a partir do reforço da exploração e produção das jazidas da Bacia de Campos.

A disposição da Petrobrás de aumentar os investimentos em gás deveria ter sido comemorada pelo setor. Mas o presidente da Associação Brasileira das Empresas Distribuidoras de Gás Canalizado (Abegás), Romero Oliveira, acredita que existe um risco em misturar, no tocante ao gás, os planejamentos estratégicos da estatal com os do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).

É possível que não apenas o setor de gás tenha dúvidas quanto à política de investimentos da Petrobrás, pois se algumas atividades terão acréscimo de recursos, outras sofrerão diminuição.

A Petrobrás admite que deverão se atrasar projetos de modernização de unidades de refino e que haverá diminuição dos investimentos no sistema de escoamento do álcool. Pode-se supor, portanto, que será adiada a construção do alcoolduto que interligará grandes centros produtores do Sudeste e Centro-Oeste com terminais marítimos no Rio. Nota da empresa refere-se apenas à fase inicial da implantação de projetos do corredor de exportação de álcool.

A estatal pretende ainda investir mais recursos em uma refinaria em Pasadena, nos EUA, e no desenvolvimento de novos projetos de exploração e produção na América Latina, na Turquia e em Angola, em detrimento de outros projetos na Nigéria, EUA e Argentina.

Sobretudo, não ficou claro o quanto as metas da Petrobrás foram influenciadas pelo lançamento do PAC. A estatal já previa, em seu plano de negócios, investir US$ 87,1 bilhões (equivalentes, hoje, a R$ 185,5 bilhões) até 2011. Agora, a Petrobrás deverá investir no âmbito do PAC R$ 171,7 bilhões, até 2010 - ou seja, aplicará mais do que previsto, mas nada que surpreenda quem acompanha o setor. Com investimentos de tal magnitude, é importante evitar que a política de aplicação de recursos seja usada para ampliar os tentáculos da empresa sobre o setor energético.

Na sexta-feira, o governador José Serra vetou projeto de lei que abria a possibilidade de participação majoritária de empresas federais no capital da Comgás, principal distribuidora de gás do Estado. O projeto tinha como propósito deixar o caminho pavimentado para que, um dia, a Petrobrás pudesse pretender o controle da distribuição de gás no Estado, como ocorre no resto do País, pois a estatal é acionista das companhias de gás dos demais Estados.