Título: Dano cerebral interrompe vício
Autor: Girardi, Giovana
Fonte: O Estado de São Paulo, 26/01/2007, Vida&, p. A14
Adeus aos adesivos de nicotina. Para realmente abandonar o vício, basta uma pancada num ponto específico na cabeça de um fumante. Ele vai desistir de vez dos cigarros - e nem sequer vai voltar a sentir vontade de uma tragada. Não, essa não é uma campanha maluca. A descoberta é científica, mas está longe de representar um tratamento para quem quer deixar de fumar.
Um grupo de cientistas americanos divulga hoje na revista Science um estudo que mostra que uma pequena região no interior do cérebro conhecida como ínsula, que tem o tamanho de uma moeda de R$ 0,25, está ligada ao vício em nicotina. E que um dano na estrutura pode eliminar a compulsão por cigarro. Os cientistas, no entanto, se apressam para ressaltar que lesar o cérebro não é opção de tratamento.
O trabalho foi inspirado em um paciente que fumava regularmente 40 cigarros por dia, mas que abandonou o hábito logo após sofrer um derrame que afetou a ínsula. Ele explicou aos pesquisadores que seu corpo simplesmente tinha ¿esquecido a compulsão por fumar¿. Para Antoine Bechara, que participou do estudo, é ¿como se um interruptor fosse desligado¿.
Claro que após um acidente que põe em risco a vida de uma pessoa, é comum abandonar hábitos pouco saudáveis. Para testar então o papel da ínsula, os cientistas compararam 19 fumantes que consumiam mais de cinco cigarros por dia e tinham sofrido uma lesão nessa área do cérebro com outros 50 fumantes que também tinham dano cerebral, mas em outras regiões.
Descobriram que dos 19, 13 interromperam o vício, sendo que 12 relataram que isso ocorreu tranqüilamente e que não houve vontade de voltar - os cientistas não souberam explicar por que os outros seis continuaram fumando. No outro grupo, algumas pessoas também abandonaram o vício, mas sem tanta facilidade.
Essa área do cérebro já era conhecida por receber sinais do corpo quando ele está sentindo alguma necessidade, como fome, sede. Mas ainda não tinha sido relacionada ao desejo por drogas. Cientistas perceberam, no entanto, que ela é ativada devido a algumas pistas ligadas a drogas, tais como a observação de alguém as usando ou até mesmo dos instrumentos utilizados, como seringas. E, justamente por estar relacionada a outras necessidades do corpo humano, é que não se pode simplesmente lesar a ínsula de viciados. Mas a descoberta aponta novos alvos para as terapias contra o vício.