Título: Petróleo atrai setor privado
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Fonte: O Estado de São Paulo, 29/01/2007, Notas e Informações, p. A3
Os investimentos das empresas privadas no setor de petróleo deverão atingir US$ 25 bilhões até 2011, representando uma quarta parte do total aplicado na exploração e produção da commodity no Brasil, segundo estimativas do Instituto Brasileiro de Petróleo (IBP) e do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Embora a fatia principal dos investimentos (75%) continue sob a responsabilidade da Petrobrás, o setor privado passa a ocupar espaço relevante num segmento que foi totalmente controlado pelo Estado até a quebra do monopólio pela Lei 9.478, de 1997.
Os números mostram o êxito dos leilões de blocos de exploração feitos pela Agência Nacional de Petróleo (ANP), que atraíram dezenas de companhias multinacionais.
A norte-americana Devon, que investiu US$ 400 milhões, será a primeira empresa privada a controlar totalmente um projeto de produção de grande porte no País. Em 2000 ela venceu, em parceria com a sul-coreana SK, uma licitação da ANP, e quatro anos depois descobriu o Campo de Polvo, na Bacia de Campos. E em novembro iniciou a instalação de uma plataforma nesse campo que deverá extrair 50 mil barris por dia, a partir de julho - destinados, provavelmente, à exportação. Segundo o presidente da Devon no País, Murilo Marroquim, a empresa considera o Brasil um dos países prioritários para investimentos em petróleo.
A norte-americana Chevron já decidiu investir US$ 3 bilhões, nos próximos anos, e também busca novas oportunidades, segundo sua diretora Patrícia Pardal. A Chevron detém participação de 51,74% no Campo de Frade, na Bacia de Campos, no qual está associada à Petrobrás e ao fundo de investidores Frade Japão. Apenas no Campo de Frade os investimentos previstos são de US$ 2,4 bilhões, com vistas à produção de 100 mil barris diários de petróleo a partir de 2009. A quantidade a ser extraída representa mais de 5% da produção total brasileira, em 2006. E, até 2015, a meta da multinacional é produzir 110 mil barris/dia no País, o equivalente a 4% de sua produção mundial.
A Shell, que já atuava no Brasil na distribuição de derivados, investiu US$ 1,5 bilhão em exploração de petróleo e é a principal produtora privada (50 mil barris/dia), em conjunto com a Petrobrás. Hoje, a Shell concentra as aplicações no desenvolvimento, para produção, de dois blocos, em Campos e na Bacia de Santos.
Outro projeto totalmente privado é o da norueguesa Norks Hydro, que investe no Campo de Peregrino, na Bacia de Campos, que deverá entrar em produção em 2010.
Estima-se que o total dos investimentos em petróleo atinja US$ 100 bilhões entre 2007 e 2010. Desse total, a Petrobrás aplicará US$ 75 bilhões (dos investimentos totais de US$ 87,1 bilhões previstos pela estatal até 2011, US$ 12,1 bilhões serão aplicados no exterior).
Grande parte dos recursos será aplicada na aquisição de bens e equipamentos e na contratação de mão-de-obra nacionais. ¿O índice de nacionalização no setor é da ordem de 65%¿, segundo o especialista Alfredo Renault, da Organização Nacional das Indústrias de Petróleo (Onip). E esse porcentual tende a crescer.
A expansão das aplicações privadas já é vista como o surto de um novo ciclo de investimentos no segmento petrolífero e marca uma mudança radical no setor, que representa 10% do PIB. A Petrobrás tende a diminuir seu peso relativo, ainda que mantenha seu projeto de investimentos.
Investidores estrangeiros mostram sua disposição de aplicar a longo prazo no Brasil, apesar da elevada carga tributária e dos custos de transação. Evidencia-se, ainda, a relevância da ANP e da importância do êxito dos primeiros sete leilões por ela promovidos, entre 1999 e 2005.
A oitava rodada da ANP, realizada em fins do ano passado, não teve o mesmo êxito das anteriores porque foi interrompida por decisão judicial. A próxima licitação terá a atenção especial de 56 companhias privadas que atuam no setor. Só se chegou a este estágio porque a ANP manteve grau de independência suficiente para atrair o investidor privado.