Título: O ocaso do presidente Bush
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Fonte: O Estado de São Paulo, 29/01/2007, Notas e Informações, p. A3

Fosse o regime político dos Estados Unidos o parlamentarismo, George W. Bush teria voltado para o Texas em 7 de novembro, quando, por expressiva maioria, os americanos aproveitaram a eleição de meio de mandato para dar ao chefe do seu governo um inequívoco voto de desconfiança, que se traduziu na reconquista da Câmara dos Representantes e do Senado pela oposição democrata, depois de 12 anos de hegemonia republicana. Mas o presidencialismo, que assegura ao atual titular da Casa Branca mais dois anos no comando do país, não o impediria de se curvar à ensurdecedora manifestação de repúdio à sua calamitosa política iraquiana. Nem lhe faltou oportunidade para uma saída honrosa - o plano bipartidário de um desengajamento gradual dos EUA do devastado país árabe.

Mas, como o jogador viciado que quanto mais perde mais aposta, na irracional esperança de recuperar tudo com uma grande tacada, Bush dá as costas ao julgamento popular que o condenou e desdenha da chance de salvar a face e retirar o seu partido com vida dos escombros do Iraque. Deixando atônitos até os republicanos, resolveu acrescentar aos cerca de 130 mil soldados acantonados no Iraque outros 21 mil. É o pior dos dois mundos: para ter uma chance de reduzir drasticamente a violência que semeou o caos no Iraque, o reforço das tropas americanas, no entender quase unânime dos especialistas, deveria ser muito maior. Só assim, poderia, talvez, mudar o curso do conflito em que a insurgência à ocupação se entrelaça com a sanguinolenta guerra civil entre xiitas - hegemônicos no governo e apoiados pelo Irã - e sunitas, o grupo etnorreligioso em que se apoiava Saddam Hussein.

Foi sob o peso dessa realidade que um ferido, mas impenitente Bush, subiu os degraus do Capitólio na terça-feira para cumprir o mais importante ato da liturgia política dos EUA - o discurso anual do Estado da União, misto de prestação de contas e anúncio de projetos. Pela primeira vez, Bush tinha contra si um ambiente frio, quando não hostil, índices de aprovação na casa de aplastadores 30% e o eco das lúgubres palavras do recém-nomeado comandante americano no Iraque, general David Petraeus. Poucas horas antes, ele dissera na comissão de Assuntos Militares do Senado que a situação no país era ¿terrível¿. Bush tentou o gambito de valorizar o front doméstico, apresentando duas propostas nas áreas de energia (menor consumo de gasolina e maior uso de etanol) e saúde (subsídios a pessoas sem seguro médico-hospitalar).

Os democratas reagiram à primeira proposta com indiferença e não tomaram conhecimento da segunda, a ponto de um senador dizer que ela nem merece ser debatida. Outro lance de Bush foi se mostrar humilde. Pediu à nova maioria parlamentar, reforçada por uma crescente dissidência republicana, que desse ¿uma chance¿ ao aumento de tropas. Declarou, como quem apela, que ¿essa não é a luta que nos levou ao Iraque, mas é a luta em que estamos¿. Tudo por nada. Os democratas escolheram para falar por eles um senador de primeiro mandato, Jim Webb, ex-republicano, veterano do Vietnã, com um filho no Iraque. Meses atrás, numa recepção na Casa Branca, ele respondeu asperamente a uma pergunta de Bush sobre o soldado seu filho e se recusou posar com ele para uma foto protocolar. Sua fala, minutos depois do discurso presidencial, foi implacável, quase feroz.

Um a um ele relacionou os diversos custos ¿atordoantes¿ da guerra para os EUA, ¿especialmente o precioso sangue dos nossos concidadãos¿. E conclamou: ¿Precisamos de uma nova direção.¿ No dia seguinte, no mesmo espírito de confronto aberto, a comissão de Relações Exteriores do Senado decidiu que o envio de forças adicionais ao Iraque é ¿contrário ao interesse nacional¿. A decisão, que irá a plenário na próxima semana, não tem valor legal, mas o seu poderio simbólico é avassalador, ao desqualificar um ato do presidente em tempo de guerra - um tabu na cultura política norte-americana. Dela também faz parte a crença de que o ocupante da Casa Branca, a partir da metade do mandato final, tende a se tornar um ¿pato manco¿: o poder migra para os possíveis sucessores. Mas o que acontece com Bush é outra coisa. O homem considerado o mais poderoso do mundo definha na Casa Branca.