Título: Aviões foram comprados para treinar pilotos da Aeronáutica
Autor: Manzano Filho, Gabriel
Fonte: O Estado de São Paulo, 28/01/2007, Nacional, p. A10

Por que um cidadão comum, ainda que seja militar reformado, compraria cinco aviões de guerra desativados, pesando oito toneladas cada um? A primeira explicação é que Gustavo Franco Ferreira sabia daqueles aviões 'desde criancinha'. Ele trabalhou duro pela FAB por dois anos, na representação da Aeronáutica em Washington, participando da negociação da compra de 36 aviões F5-E Tiger II, no início dos anos 70. Os F5-B, com dois lugares, foram encomendados para treinamento desarmado de pilotos, sem perda da capacidade de combate. Na mesma ocasião, com um ano de antecedência, o Brasil havia comprado da França os interceptadores Mirage IIIE/BR, que passariam a ser considerados os aviões da elite da FAB. Sabendo, em 1996, que eles estavam 'em desuso' e seriam leiloados, Ferreira conversou a respeito com o amigo americano, Richard Boulais.

Empresário do ramo da aviação, Boulais aceitou financiar a compra. Ganharia dinheiro com eles no chamado 'turismo radical', cobrando módicos US$ 12.000 por hora para levar gente rica e aventureira a supersônicos passeios pelos céus do Meio-Oeste americano. Poderia, ainda, arrendá-los à ATSI para serem usados no treinamento de pilotos para unidades da Força Aérea dos Estados Unidos (USAF) ou, até mesmo, exibi-los em museu, cobrando pelas visitas.

Ferreira ganhou o leilão, em fins de 1996. 'Comprei como pessoa física. Está no meu Imposto de Renda', ressalta. Pagou uma parcela inicial de 10%, R$ 310.947, e 5% para o leiloeiro (R$ 155 mil). Por cautela, pagou com um cheque-caução para a Caixa Econômica Federal, e não diretamente para o leiloeiro, como constava do edital.

Entre a propriedade dos aviões e sua posse, havia uma distância com que ele não contava. Numa seqüência de pequenos episódios, o leilão foi anulado, fez-se uma venda direta, ele tornou a ganhar, novas exigências foram feitas, até que a FAB, alegando exigências da lei americana - aquelas a respeito do end user, que Ferreira entende que não deveriam ser aplicadas -, chamou-o para uma reunião, em 2002, no Campo de Marte.

'Conversamos por oito horas, eu de um lado da mesa e 10 ou 12 autoridades do outro', diz ele. No encontro, Ferreira diz ter recebido uma proposta de anular os certificados de propriedade. Não só a rejeitou como, depois, conseguiu do Parque Aeronáutico autorização para lacrar os aviões. 'No lacre tem o meu nome, como dono do material. E desde então o caso se arrasta, sem solução.'