Título: Nova geração briga pela Casa Branca
Autor: Broder, John M.
Fonte: O Estado de São Paulo, 28/01/2007, Internacional, p. A14

Chegou a hora, diz o senador Barack Obama, de os baby boomers (a geração de americanos nascidos no pós-2ª Guerra Mundial) verem que estão ultrapassados. Ao dar este mês os primeiros passos rumo à candidatura presidencial, Obama, que nasceu em 1961 e se considera membro da geração pós-boomer, disse que os americanos ansiavam por ¿um tipo diferente de política¿, que fosse além das desgastadas batalhas ideológicas dos anos 60. Para defender seu ponto de vista, esse democrata de Illinois em seu primeiro mandato no Senado anunciou sua entrada na corrida à Casa Branca num vídeo exibido em seu site na internet. Ele aparece sem gravata e relaxado.

Obama calcula que americanos de todas as idades já não suportam os boomers belicosos e estão prontos para endossar a geração que ficou adulta depois da Guerra do Vietnã, depois das guerras culturais dos campi entre os excêntricos e os certinhos, e depois de os jovens terem desistido do que a superboomer Hillary Clinton chamou, em seu discurso de formatura em 1969, em Wellesley, de busca de ¿um modo de vida mais imediato, extasiante e penetrante¿.

Em seu segundo livro, The Audacity of Hope (A Audácia da Esperança), Obama critica o estilo e a política dos anos 60, quando a psique da maioria de seus potenciais adversários para a Casa Branca se formou. Ele escreve que os políticos daquela época eram altamente pessoais, explorando toda interação entre juventude e autoridade, e entre pares. As batalhas se deslocaram para Washington nos anos 90 e persistem até hoje, diz Obama. ¿Nas disputas entre Bill Clinton e Newt Gingrich (então presidente republicano da Câmara), e nas eleições de 2000 e 2004, eu às vezes sinto como se estivesse observando o psicodrama da geração baby boom - uma história radicada em velhos rancores e tramas de vingança armadas num punhado de campi universitários há muito tempo - encenado no palco nacional.¿

Obama diz reconhecer que as questões candentes dos anos 60 - guerra, racismo, desigualdade, relações entre os sexos - ainda animam a política e a sociedade americanas e continuam em grande parte não resolvidas. E reconhece, como filho de mãe branca do Kansas e pai negro do Quênia, que sua posição de destaque e suas perspectivas teriam sido impossíveis sem as lutas dos que marcharam em Selma e Washington. Mas argumenta que os EUA enfrentam novos desafios que requerem um novo paradigma político.

Obama pode ter alguma razão. Pesquisas - e o mercado acionário - mostram que os fundadores do Google, Sergey Brin e Larry Page, ambos com 36 anos, estão entre os empresários mais admirados dos EUA. E uma instituição do establishment como a Ford Foundation sugeriu que buscará um líder na faixa dos 40 quando Susan Berresford, presidente da fundação desde 1996, se aposentar ao completar 65 anos, no ano que vem.

Muitos boomers autocríticos concordam que sua corte deveria se acalmar e ir para a colônia vegetariana com que sonhavam. ¿Nós, baby boomers, fomos terríveis na arena pública¿, escreveu o colunista da Time Joe Klein num blog há duas semanas. Por outro lado, Brin e Page recrutaram um veterano da indústria de tecnologia, Eric E. Schmidt, nascido em 1955, para tocar os negócios do dia-a-dia do Google enquanto eles buscam modos de fazer sua cria render. E apesar da suposta fome por uma nova geração de líderes, foi eleito em novembro o que é, provavelmente, o Congresso mais velho da história americana, segundo o Serviço de Pesquisas do Congresso.

Paul Costello, de 54 anos, que trabalhou nas campanhas presidenciais de Jimmy Carter, Michael Dukakis e Walter Mondale, diz que a pergunta que a maioria dos americanos faz não é ¿Quando vocês nasceram?¿, mas ¿O que vocês conseguiram?¿. Costello, diretor de comunicações da escola de medicina de Stanford, disse ainda: ¿Hillary é como a estudante estrela e Obama, como um estudante transferido, e todos dizem: `Uau, que cara legal, quem é ele?¿ Mas ninguém sabe muito sobre ele e todos conhecem a condição de oradora oficial de turma de formandos de Hillary. Não sei o quanto os eleitores realmente ligam para essas questões de baby boomers versus Geração X. É uma linda espécie de afirmação de marca, uma coisa de marketing quando se está tentando criar a si mesmo do nada¿.

As campanhas presidenciais modernas são essencialmente testes de caráter e por 20 anos ou mais as divisões políticas e culturais dos anos 60 serviram de postes de sinalização para o caráter de um candidato. Ele protestou contra a guerra, viajou para ver Hendrix, marchou em solidariedade às mulheres? Ou se alistou no Corpo de Treinamento de Oficiais da Reserva, tocou uma fraternidade, aderiu a uma igreja? Quando jovem, Obama não teve de fazer muitas dessas escolhas, e ele agora tem uma oportunidade de se definir em seus próprios termos e não ser imediatamente caricaturado com base em decisões pessoais que tomou há quatro décadas. (Ele admitiu o consumo moderado de maconha e cocaína na juventude; isso não parece ter prejudicado suas perspectivas.) ¿Em que pé você estava nessas questões realmente dizia às pessoas o que você era¿, disse Chris Lehane, uma ex-funcionária da Casa Branca de Clinton que hoje é consultora política na Califórnia. ¿Mas 2008 representará um momento de inflexão na política de gerações, não só pelo destaque do candidato pós-boomer, mas porque este será o primeiro ciclo em que toda uma nova gama de questões tão grandes, se não maiores, que as grandes questões que definiram os boomers, está em foco: Iraque, a guerra contra o terrorismo, aquecimento global, energia, tecnologia e globalização.¿

Enquanto a dinâmica geracional Obama-Hillary terá uma importância particular nas primárias, os eleitores republicanos estarão considerando a candidatura de um dos homens mais velhos a tentar a presidência, John McCain, de 70 anos - o único presidenciável nascido antes de 1943, o início não oficial do baby boom. O presidente John Kennedy notou em seu discurso de posse, em 1961, que uma tocha fora passada a uma nova geração de americanos, ¿nascidos neste século, temperados pela guerra, disciplinados por uma paz dura e amarga¿. A geração de Kennedy, conhecida como GI e nascida entre 1901 e 1924, ocupou a Casa Branca continuamente até Bill Clinton a retirar de George H. W. Bush (pai do atual presidente) em 1992. Clinton a entregou a outro boomer, George W. Bush.

Mas alguns dizem que após 14 anos de auto-indulgência política e pessoal em Washington e uma guerra desgastante é hora de dizer adeus à geração centrada em si mesma. ¿Obrigado, eis o seu relógio de ouro, é hora de o estilo pessoal e o arcabouço político dos anos 1960 saírem do caminho¿, disse Eric Liu, de 38 anos, um escritor de discursos e assessor político da Casa Branca de Clinton que atualmente dirige um programa de consultoria em Seattle.

Mas Obama não demonstrou sua liderança além de oito anos no Senado de Illinois e dois em Washington. Sua oposição inicial à guerra do Iraque agradou a muitos eleitores democratas, mas não está totalmente claro como ele conseguiria encerrar a guerra e lidar com o terrorismo global e outros desafios da política externa. O historiador e ex-assessor de Kennedy Arthur M. Schlesinger Jr. disse que Obama precisava oferecer mais que um repúdio aos atos de gerações anteriores. Todd Harris, de 35 anos, um consultor político republicano, afirmou: ¿Acho que a maioria das pessoas que conheço de minha geração dará importância muito maior às habilidades de liderança do candidato e a sua capacidade de guiar a nação em tempos turbulentos do que à geração a que pertence esse político ou o que essa pessoa baixou recentemente do iTunes¿.

Obama seria um tolo de concorrer exclusivamente como o antiboomer, disse Chris Lehane, quando menos porque os boomers são a maior geração da história americana, e eles votam.