Título: 'PAC troca consenso de Washington pelo do sertão'
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Fonte: O Estado de São Paulo, 01/02/2007, Nacional, p. A6
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva inaugurou ontem a maratona para divulgar as obras de seu Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) alfinetando o governo de seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso. 'Houve um tempo em que se tomou uma determinação de terceirizar o País', afirmou Lula em discurso na assinatura de contrato de R$ 2,47 bilhões para construção de dez navios-tanque - o primeiro evento do PAC - no Porto de Suape, em Cabo de Santo Agostinho, a 50 quilômetros do Recife.
'O País foi terceirizado. Os governantes entendiam que tinha havido um tal consenso de Washington, e que ninguém tinha lido. Mas, se era de Washington, era bom. Para mim o consenso é do sertão nordestino, é de Brasília, de São Paulo, do Sul do País', disse o presidente para defender a filosofia do PAC. A previsão oficial é de que a construção dos navios-tanque acertada ontem gere 20 mil postos de trabalho diretos e indiretos.
Lula também mandou recados aos governadores, empenhados em obter concessões em troca de apoio para aprovação dos projetos no Congresso. Nos eventos de que participou ontem, repetiu que a partilha da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF), pleiteada pelos Estados, 'não está em negociação' agora. 'Vamos resolver todos esses problemas quando votarmos a reforma tributária', afirmou durante entrevista no Porto de Suape.
Ele também sugeriu aos descontentes com seu programa que façam projetos próprios. 'As obras que estão no PAC não são de interesse do presidente da República, mas dos Estados. Eu sugiro que cada governador crie um PAC para seu Estado, que cada prefeito crie um PAC para seu município. Aí, a gente vai ter uma combinação de obras.'
Em Parnamirim (RN), durante vistoria das obras de duplicação da rodovia BR-101, Lula tratou especificamente do caso do governador de São Paulo, José Serra, para quem o programa representa apenas uma 'ordenação de investimentos federais'. 'São Paulo tem grandes investimentos. O rodoanel e o ferroanel são obras históricas de São Paulo. Ele (Serra) sabe que o primeiro trecho do rodoanel eles levaram 12 anos para construir e nós estamos nos comprometendo com a parte 2', afirmou, ao ser questionado por jornalistas.
No Porto de Suape, Lula disse que o País está pronto para crescer com 'muita responsabilidade'. 'Crescimento não significa a farra do boi, não significa gastar o que não tem.'
Em Crateús (CE), em discurso para 5 mil pessoas, em uma usina de biodiesel, afirmou que o Brasil vai limpar com projetos de combustíveis renováveis a 'sujeira' produzida pelos países ricos. 'É uma questão não apenas de honra, mas de soberania, limparemos o planeta que os outros estão sujando.' E classificou o biocombustível de obra divina. 'Foi obra de Deus que me convenceu de que o biocombustível tinha de ser implantado', afirmou. 'Deus colocou na Terra quando criou o mundo.'
Na cidade cearense, Lula também sinalizou mudanças na política social. 'Na área social, tem coisas para ser ajustadas, e vamos ajustá-las', disse. Mas não adiantou que alterações pretende fazer.
Em Parnamirim, ele comentou a disputa dos partidos pela obtenção de espaço na nova equipe de governo, especialmente o empenho do PT em assegurar sua fatia. 'Quem decide isso sou eu. Na hora em que eu tomar a decisão de fazer a montagem do governo para o segundo mandato, vou tomar aquilo que estiver na minha cabeça, o que for melhor', disse.
Mesmo assim, mostrou-se disposto a ouvir os pedidos. 'Quem quiser fazer reivindicação, eu sou o homem', brincou. Insistiu, porém, que a prioridade será 'a competência técnica e profissional'. 'Certamente, todos serão amigos, até porque eu não colocaria um inimigo no governo. Agora, amigos à parte. Trabalho é coisa séria.'