Título: Rússia e UE vivem tensão política
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Fonte: O Estado de São Paulo, 05/02/2007, Internacional, p. A10
Uma década e meia após a queda do regime comunista e do esfacelamento da União Soviética (URSS), alguns dos mais importantes temas da Guerra Fria pouco a pouco voltam a ganhar força no Leste Europeu. Em recuperação econômica acelerada - em torno de 6,7% ao ano -, a Rússia do presidente Vladimir Putin vem encurralando membros da União Européia (UE) como forma de retomar seu espaço político internacional.
O palco da tensão geopolítica é o entorno do Mar Negro, situado entre o Leste Europeu, a Ásia Central e o Oriente Médio. Na região, rica em combustíveis fósseis, interesses russos, ucranianos, turcos, europeus e americanos medem forças. A última demonstração pública de insatisfação ocorreu há 10 dias, quando a Chancelaria da Rússia protestou contra a autorização dada pela UE aos EUA para a instalação de um escudo antimísseis na República Checa e na Polônia - oficialmente voltado à suposta ameaça de proliferação armamentista e nuclear no Oriente Médio.
O descontentamento russo é potencializado também pela construção de bases militares americanas na Romênia e na Bulgária, novos membros da União Européia, e as negociações da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), com aval europeu, com os governos da Ucrânia e da Geórgia (ambas ex-repúblicas soviéticas). Alemanha e França, os líderes da UE, também pressionam pela democratização na região do Mar Negro como requisito para a futura inclusão dos países na área de livre comércio.
Ambos os movimentos, político e militar, têm como pano de fundo a abertura de mercados e a reorganização - leia-se ¿avanço¿ - da defesa ocidental junto à fronteira russa. ¿Mesmo formada por Estados pouco expressivos, a região do Mar Negro é centro de interesses estratégicos. O Ocidente estimula a estabilidade política como forma de obter vantagens econômicas e assegurar uma nova linha de segurança em relação à Ásia Central e ao Oriente Médio¿, disse ao Estado Jean-Michel de Waele, pesquisador do Instituto de Estudos Europeus, de Bruxelas, na Bélgica. ¿Os atores da Guerra Fria - EUA e Europa de um lado; e Rússia de outro - estão voltando a agir de forma bipolarizada e tensa no Leste.¿
Putin reagiu a essa investida contra a antiga área de influência soviética usando a questão energética como forma de pressão. Nos últimos meses, Ucrânia, Geórgia e Bielo-Rússia sofreram embargos ou ameaças de cortes no fornecimento de gás - um produto abundante nas reservas russas e questão de sobrevivência econômica e social nos invernos rigorosos do Leste Europeu. Desde então, a ¿guerra fria¿ por combustível na região do Mar Negro tornou-se o exemplo mais visível da tensão internacional entre a UE e a Rússia. ¿A questão energética é a fórmula encontrada pelo governo russo de demonstrar ao mundo que o país é política e militarmente poderoso¿, afirmou ao Estado a cientista política alemã Susanne Niels, diretora de pesquisa do Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas de Paris.
No jogo de pressões, a resposta dos membros do bloco econômico foi um novo foco de tensão diplomática: a exclusão da companhia russa Gazprom do projeto Nabucco - um gasoduto avaliado em ¿ 4 bilhões que deverá ligar o Azerbaijão à Hungria, passando pela Turquia e, se confirmado o projeto original, pelo Irã e Iraque. A estratégia do bloco europeu é pôr fim à dependência energética da Rússia - excluída do trajeto -, já que Putin tem mantido sob sua tutela os governantes da Ucrânia, da Moldávia, da Bielo-Rússia e dos Estados da ex-Iugoslávia.
Para Waele, a ¿demonstração de força¿ de Putin é também o reconhecimento de sua fragilidade. Em razão da reestruturação financeira após a derrocada soviética, a Rússia volta a dar cartas no mundo globalizado, mas agora disputa com a UE e a China a posição de segunda potência, em contraponto aos EUA. ¿Os russos se sentem marginalizados pelo poderio econômico dos EUA e da Europa, pela emergência da China e a prioridade que os Estados islâmicos vêm exigindo da agenda internacional¿, diz Waele. Daí as posições de afronta ao Ocidente, como a manutenção da transferência de tecnologia nuclear ao Irã e o veto às resoluções da ONU que propõem embargo a Teerã.
A política russa de ¿diplomacia beligerante¿ sobressalta e divide a UE. O governo polonês defende o endurecimento das relações. A Alemanha quer negociar. ¿Há muita tensão neste momento, mas está provado que as economias de Rússia e União Européia vivem em mútua dependência¿, disse ao Estado, a deputada dinamarquesa Anne Jensen, da Comissão Parlamentar de Cooperação UE-Rússia.