Título: Lula vai cortar orçamento, mas garante PAC
Autor: Rodrigues, Alexandre e Chiarini, Adriana
Fonte: O Estado de São Paulo, 07/02/2007, Nacional, p. A4

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse ontem que vai contingenciar os recursos do Orçamento da União para este ano, mas reafirmou que poupará os projetos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Ao assinar o convênio que inicia o estudo para a construção do arco rodoviário da região metropolitana do Rio, uma das obras do PAC, o presidente voltou a prometer que vai cuidar pessoalmente da execução dos projetos e não deixará faltar recursos.

"Nós já estamos discutindo o orçamento e certamente eu vou contingenciar o orçamento. Mas não iremos mexer num milésimo de centavo do dinheiro que está garantido para o PAC, porque ele é a definição da prioridade", disse Lula, ao discursar na cerimônia de assinatura do convênio no Palácio Laranjeiras, na zona sul do Rio, ao lado do governador Sérgio Cabral Filho (PMDB).

O presidente disse que, apesar da criação do comitê gestor do PAC - que é composto pelos Ministérios da Fazenda, do Planejamento e da Casa Civil -, pretende assegurar pessoalmente que o programa saia do papel. Para isso, planeja intensificar suas viagens pelo País para fiscalizar o andamento dos projetos. Criticado por inaugurar obras às vésperas da campanha pela reeleição no ano passado, ele disse que desta vez poderá viajar ouvindo menos críticas de seus adversários. "O porco só engorda se o olho do dono estiver olhando. Senão não engorda", afirmou.

Lula reclamou da burocracia e disse que, se for preciso, se empenhará pessoalmente para superar obstáculos que as obras possam encontrar, como a demora de licenças ambientais, dificuldades na área de transporte e até restrições do Ministério da Fazenda. No ano passado, o presidente provocou reações - inclusive dentro do próprio Ministério do Meio Ambiente - ao apontar a questão ambiental como entrave para o crescimento mais acelerado da economia.

Ontem, ele também afirmou que, se o problema for a aprovação do Programa de Aceleração do Crescimento no Congresso, o governo procurará o diálogo com os líderes partidários. Tudo para evitar que haja atrasos nas obras planejadas.

"Não queríamos fazer do PAC um pacote de intenções, como já foi feito neste país dezenas de vezes", disse Lula - ele próprio autor do anúncio, feito em 2003, de que estava para começar o ¿espetáculo do crescimento", não confirmado pelas estatísticas sobre o crescimento do PIB daquele ano e dos anos seguintes de seu primeiro mandato. "Passa um, dois, três, quatro anos e ele não deixou de ser um pacote de intenções. O que colocamos no PAC são obras que têm começo, meio e fim. Projetos com destinação financeira garantida, que a gente não pode mexer", afirmou. "O PAC vai ter o olho do presidente."

AFAGOS

Na visita ao Rio, Lula recebeu afagos do governador fluminense, que defendeu publicamente o PAC com entusiasmo. Pouco antes de fazer seu discurso, o presidente já tinha ouvido a promessa de Cabral de ajudar na aprovação do programa. "O Rio apóia integralmente o PAC", declarou Cabral a Lula. "Para reclamar, tem muita gente. Mas ninguém fez o PEC, o POC, o PUC. O senhor fez o PAC", brincou Cabral, dirigindo-se ao presidente.

No fim do discurso, Lula pediu licença à platéia de deputados, secretários de Estado e empresários para falar sobre "essa história do planeta". Referindo-se às discussões internacionais em torno do aquecimento global, o presidente se queixou da posição dos países desenvolvidos, que cobram de nações como o Brasil o freio às práticas de desmatamento sem que elas consigam reduzir as emissões de gás que agravam o efeito estufa. Para Lula, poucos países têm "autoridade moral¿ para falar nesse assunto com o Brasil - que, segundo ele, reduziu em mais de 50% o desmatamento nos últimos anos.

"Precisamos iniciar uma campanha diferente. Não é apenas preservar a nossa fauna, a nossa floresta, as nossas águas", afirmou Lula. "É fazer os países ricos diminuírem a emissão de gases. Eles podem usar outros combustíveis. Por que não utilizam álcool e biodiesel?" Estados Unidos, China e Índia, grandes poluidores mundiais, têm se negado a assumir compromisso de reduzir emissões. Para Lula, o Brasil deve ser visto como exemplo de revolução na matriz energética.