Título: Protesto acaba em violência na Bolívia
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Fonte: O Estado de São Paulo, 08/02/2007, Internacional, p. A12

Dois policiais bolivianos ficaram feridos ontem ao entrar em choque com mineiros cooperativados, no segundo dia de protestos com dinamites pelas ruas de La Paz, contra um plano do governo de aumentar os impostos do setor.

Os mineiros agrediram dois policias, fizeram outros quatro agentes ¿reféns por alguns minutos¿ e ainda tomaram duas motocicletas dos membros das forças de segurança, segundo o ministro do Interior da Bolívia, Alfredo Rada. ¿Um grupo de mineiros radicais, entre eles alguns em estado inconveniente (bêbados), tentaram agredir à polícia¿, afirmou Rada.

Para o ministro, os mineiros querem arranjar ¿um pretexto para a ruptura do diálogo¿, que começou ontem entre o presidente Evo Morales e os dirigentes da poderosa Federação de Cooperativas Mineiras (Fecomin). ¿Não vamos cair em provocações, nossa prioridade é o diálogo¿, declarou o ministro.

Os milhares de mineiros mantiveram ocupadas as ruas do centro de La Paz, na Praça São Francisco, bloqueando a passagem de veículos e a sede do governo e assustando a população com a detonação de pequenas cargas de dinamite. Pouco antes, o principal dirigente dos mineiros, Andrés Villca, disse que os manifestantes não fariam marchas como na terça-feira e se manteriam em ¿vigília¿ perto da praça, esperando os resultados das negociações.

Os mineiros protestam desde terça-feira, exigindo a anulação de um projeto de lei que prevê o aumento de entre 60% e 70% o Imposto Complementar da Mineração (ICM), cobrado da mineração privada, que inclui as cooperativas. Segundo o governo, de mais de US$ 1 bilhão da exportação de minérios em 2006, o Estado boliviano só recebeu US$ 45 milhões em impostos.

O governo insiste que não há razão para os protestos, uma vez que se propôs a congelar a aplicação do aumento no caso das cooperativas. Elas reúnem cerca de 63 mil sócios e trabalhadores. Em 2006, exportaram US$ 380 milhões e pagaram US$ 18 milhões em impostos.

Evo insiste em aplicar o aumento ao restante da mineração privada e espera chegar a um acordo com as cooperativas para que passem a pagar um pouco mais que hoje, ainda que menos que o restante do setor.

Paralelamente ao início das negociações entre o governo e a Fecomin, uma juíza ordenou ontem a libertação de oito mineiros, detidos entre segunda e terça-feira com 273 cartuchos de dinamite. A libertação era uma das condições impostas pelos dirigentes para iniciar o diálogo com o governo.

Os mineiros também exigem a demissão do ministro do setor, Guillermo Dalence, que em outubro substituiu Walter Villarroel, alto dirigente das cooperativas destituído por Evo. Villarroel foi tirado do cargo após seu setor começar um violento enfrentamento, com armas e dinamite, pelo controle de uma mina no sudoeste do país, contra os trabalhadores da estatal Corporação Mineradora da Bolívia. O confronto terminou com 16 mortos.