Título: Abraço em Dirceu, longe das câmeras
Autor: Rosa, Vera e Tosta, Wilson
Fonte: O Estado de São Paulo, 11/02/2007, Nacional, p. A4
Já era madrugada de sábado quando o presidente Lula cumprimentou com um caloroso abraço o deputado cassado José Dirceu, ex-ministro da Casa Civil, logo após passar um 'sabão' nos companheiros na festa do PT. Ele discursou, desceu do palanque e, na planície, abraçou Dirceu - depois de seguranças e o próprio mestre de cerimônias terem convidado os fotógrafos a deixar o salão. Do lado de fora, alguns ainda conseguiram registrar a cena.
'Estou em casa', comemorou Dirceu, que circulava entre as mesas animadamente. Ele ouviu vários apoios à sua anistia, mas, apesar das evidências, jurou que ainda não estava em campanha. No momento de cumprimentar o ministro Tarso Genro, tocava o Bolero, de Ravel.
Antes de deixar o local - a área verde de um hotel com vista para a praia de Ondina, Lula permaneceu 15 minutos posando para fotos ao lado de petistas. As 500 pessoas que jantaram com ele desembolsaram de R$ 200 a R$ 300 pelos convites e tiveram direito a mordomias. Logo na entrada do amplo salão, baianas exuberantes, com vestidos estampados em cores alegres, distribuíam caixas de cigarrilhas 'Dona Flor', made in Bahia, e charutos feitos na hora. Cotado para integrar o ministério, o deputado Geddel Vieira Lima (PMDB-BA) não era, ali, um estranho no ninho. Recebeu até palmas, puxadas pelo presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP).
Apesar da penúria financeira do PT - que tem dívida de R$ 50 milhões - o buffet era refinado. No cardápio, acarajés, carpaccio de salmão e pratos da nouvelle cuisine francesa, acompanhados de champanhe, espumantes nacionais, vinho tinto, uísque escocês, cerveja e caipiroscas. De sobremesa, musse de café e chocolate.
Distraído, Lula trocou duas vezes o nome da governadora do Pará, a petista Ana Júlia Carepa. Para espanto da própria, chamou-a de 'Ana Júlia Carepeta' e foi 'salvo' por amigos, que o corrigiram. Depois, ao elogiar a democracia no Brasil, cometeu outra gafe.
Ao lado de Ana Júlia e dos governadores Jaques Wagner (Bahia), Marcelo Déda (Sergipe) e Wellington Dias (Piauí), caprichou nos 'elogios' aos colegas. 'Um país onde é possível um metalúrgico chegar à Presidência, um petroquímico chegar ao governo da Bahia, um advogadozinho ainda meio chumbrega chegar a governador de Sergipe, um bancário chegar a governador do Piauí e uma mulher com a perna quebrada chegar ao governo do Pará só pode ser uma democracia', disse. Referia-se, de novo, a Ana Júlia, que fraturou a perna e ainda usa bengala. 'Lula estava um pouco cansado e foi infeliz', ela tentou explicar.
No salão, quase todos os envolvidos no escândalo do mensalão marcaram presença. Entre os politicamente ressuscitados, faltaram José Genoino e Antonio Palocci. Mais do que uma tradicional pajelança, o jantar de aniversário foi uma catarse.