Título: Para fazê-la feliz, basta compará-la a Hillary e Ségolène
Autor: Guimarães, Marina
Fonte: O Estado de São Paulo, 11/02/2007, Internacional, p. A20
A senadora Cristina Fernández de Kirchner não gosta de ser chamada de primeira-dama. Prefere o título de ¿primeira-cidadã¿, mas não abre mão de que se dirijam a ela como ¿señora¿. Advogada, como o marido, Cristina é considerada ¿fundamental no esquema de poder¿, como admitiu uma fonte do governo: ¿O grande estrategista é Kirchner, mas ela é sua melhor e fiel escudeira, além de conselheira.¿
Durante os 12 anos que Kirchner foi governador de Santa Cruz, Cristina sempre teve um escritório ao lado do dele. Hoje, ela tem uma sala na Casa Rosada, outra no Senado. A imprensa local diz que o presidente não dá nenhum passo importante sem consultá-la, e seus discursos, principalmente os mais duros, têm o dedo dela.
O maior defensor da primeira-dama é o ministro-chefe de Gabinete da presidência, Alberto Fernández. ¿Creio que Cristina é uma mulher que expressa, como poucos ou como nenhuma, o projeto de Néstor Kirchner para a Argentina¿, disse Fernández, em referência ao movimento ¿kirchnerista¿ - uma vaga doutrina orientada à centro-esquerda, combinada com o incentivo à produção, no amplo espectro do peronismo.
Ninguém questiona a eficiência da senadora. Desde que ganhou a primeira eleição em Río Gallegos, em 1989, como deputada provincial, nunca mais deixou de exercer cargos legislativos. Naquela época, Kirchner completava dois anos à frente da prefeitura local.
A primeira-dama não demorou muito para chegar ao Congresso Nacional e transformar-se em dor de cabeça para o então presidente Carlos Menem. Tanto que a expulsaram do bloco oficial na Câmara.
Na Casa Rosada, quase todos a elogiam. Mas em conversas privadas é acusada por alguns funcionários de ser extremamente autoritária. A mulher do presidente não gosta de usar o sobrenome do marido, prefere Cristina Fernández. Para fazê-la feliz, basta compará-la com Hillary Clinton e com Ségolène Royal.
A imprensa local adora comentar sobre a vaidade da primeira-dama e registra cada uma das renovações que faz dos pés à cabeça: quadris, rosto, lábios, cintura e extensões que dão um volume extra aos longos cabelos negros.
Nada diferente do que já virou mania nacional: botox, lipoaspiração, lifting. Nas viagens internacionais que realiza ao lado do marido, ela inclui em sua agenda visitas obrigatórias às lojas da moda.
Seu estilo se revela na mistura de cores e texturas nem sempre felizes. Cristina abusa dos brilhos, tanto em roupas quanto em acessórios, e tem uma louca paixão por couro e saltos altíssimos - obrigatórios para dissimular sua estatura não revelada oficialmente, mas que gira em torno de 1,50 metro.
O Rolex de ouro e brilhantes também é um companheiro inseparável. A senadora combina o marketing das jóias de Evita com o pragmatismo de seu marido. Quer representar a chamada ¿nova política¿ que prega o fim do clientelismo e a distribuição eqüitativa de renda.