Título: Mosteiro de São Bento se prepara para receber o papa
Autor: Mayrink, José Maria
Fonte: O Estado de São Paulo, 11/02/2007, Vida&, p. A26
A austera Cela nº 1 será transformada num apartamento de razoável conforto, o velho piano Kaps ficará bem afinadinho, as imagens de santos da basílica já estão sendo retocadas. O Mosteiro de São Bento, um prédio reconstruído e decorado há 100 anos pelo abade d. Miguel Kruse, um monge alemão, compatriota de Joseph Ratzinger, enviado ao Brasil para restaurar a Ordem Beneditina, está se preparando com pequenas obras e adaptações para hospedar o agora papa Bento XVI durante os três dias que ele passará em São Paulo.
¿Qualquer desejo que Sua Santidade manifestar nós vamos acatar como uma ordem¿, promete o prior, d. João Evangelista Kovas, encarregado pelo abade d. Mathias Tolentino Braga de supervisionar os preparativos para a visita do papa.
Passeios pelos claustros arborizados, recitação dos ofícios divinos no coro, refeições com a comunidade, concerto de orquestra de câmara no teatro - tudo estará à disposição de Bento XVI, se ele quiser compartilhar a vida monástica nos intervalos dos seus compromissos oficiais.
Os aposentos da Cela nº 1 - dormitório, banheiro e sala de estar, com janelas para os jardins internos do mosteiro - ocupam o primeiro andar, que foi reservado para o papa e seus assessores diretos, uma comitiva de 12 pessoas. Apenas 3 dos 37 monges do mosteiro - o abade d. Matias, o prior d. João Evangelista e o bispo aposentado d. Cândido Padin, de 91 anos - ficarão nesse andar.
Atravessando um corredor, Bento XVI terá uma ampla sala de visitas, onde ficará também o piano, para audiências e momentos de lazer. Da sacada do escritório, o papa poderá acenar para os fiéis e jornalistas que provavelmente farão plantão no Largo de São Bento, da tarde do dia 9 à tarde de 11 de maio, na expectativa de ele aparecer na janela.
Fora a emoção do encontro, nenhuma grande atração: além da estação do metrô, Bento XVI verá dois casarões de lojas de ferramentas, alguns prédios deteriorados e, ao fundo, a sede do Banespa-Santander, esta, sim, um dos símbolos arquitetônicos do centro da capital.
Na capela do Colégio São Bento, anexo ao mosteiro, a restauradora Nilva Calixto e sua equipe recuperam a beleza de imagens, quadros e paredes que os monges da Abadia de Beuron deixaram no mosteiro, quando chegaram, no começo do século passado, com a missão de restaurar a Ordem Beneditina no Brasil. Fundada em 1598, nos primeiros tempos da Colônia, a comunidade de São Paulo havia entrado em decadência durante o Império. ¿O estilo da Abadia de Beuron, que fica na Baviera, na Alemanha, a terra do papa, marca a decoração religiosa do mosteiro¿, disse a restauradora.
Nilva Calixto foi a primeira mulher a invadir a clausura, com licença especial do abade, ao ser contratada para restaurar a Capela Abacial, que será utilizada como capela privativa do papa. Dedicada ao arcanjo São Miguel e decorada também com estampas dos arcanjos São Gabriel e São Rafael, ela tem quatro cadeiras com genuflexórios e cortinas de veludo na ampla janela que dá para o coro dos monges, na basílica, alguns metros abaixo. 'Vamos instalar uma parede de vidro atrás das cortinas, para dar mais privacidade ao papa', informa d. João Evangelista.
Um quadro de São Gregório Magno, primeiro papa beneditino, vai decorar a parede do corredor, na entrada da Cela nº 1, o apartamento de Bento XVI. No escritório em frente, um quadro a óleo de d. Miguel Kruse e esculturas barrocas de São Bernardo e de São Mauro, feitas por frei Agostinho de Jesus, beneditino brasileiro que presumivelmente também esculpiu a imagem original de Nossa Senhora Aparecida, encontrada por pescadores nas águas do Rio Paraíba.
O teatro do colégio, de 324 lugares, já está pronto para o concerto que será apresentado ao papa e sua comitiva. O repertório, ainda não definido, será de música sacra, bem ao gosto de Bento XVI. No coro da basílica, os monges - que já gravaram cinco CDs, dois deles com a cantora Fortuna - poderão contar com a presença do papa para os ofícios divinos, Vigília e Completas, rezados todas as noites em latim. Os detalhes da programação, ainda em discussão, serão terão de ser aprovados pelo cerimonial do Vaticano.
O secretário-executivo da Comissão para a Visita do Papa a São Paulo, padre Marcelo Alves dos Reis, trabalha em sintonia com os monges e com a Arquidiocese de Aparecida, onde Bento XVI abrirá, no dia 13 de maio, a 5ª Conferência Geral do Episcopado da América Latina e do Caribe.