Título: Montadoras vão atrás de novo recorde com 3º turno
Autor: Silva, Cleide
Fonte: O Estado de São Paulo, 11/02/2007, Economia, p. B9
Pouco antes da meia-noite o movimento de funcionários, ônibus e caminhões carregados de peças se intensifica nos portões da fábrica da Fiat em Betim (MG). Não é o pessoal voltando para casa depois de um dia de trabalho, mas a turma que chega para varar a madrugada na linha de montagem. Para dar conta dos pedidos, montadoras abrem turnos de trabalho à noite e funcionam 24 horas, com parada apenas no domingo.
A Fiat introduziu o terceiro turno no início do mês, com jornada da meia-noite às 6 horas. A estratégia estava banida da fábrica havia dez anos, quando passou a funcionar só durante o dia. Pelo menos mais duas montadoras, Honda e PSA Peugeot Citroën, podem iniciar equipes noturnas este ano. A Honda conclui em julho a ampliação da fábrica de Sumaré (SP), e a produção diária passará de 315 para 360 modelos Civic e Fit, em dois turnos. A partir daí, estará preparada para o terceiro turno.
A PSA também opera em dois turnos em Porto Real (RJ) e deve produzir este ano 100 mil veículos, perto do limite de produção. Se for um pouco além, precisará do terceiro turno e de contratações. Além da Fiat, a Ford tem terceiro turno em Camaçari (BA), onde produz Fiesta e EcoSport, e a Volkswagen, em São José dos Pinhais (PR), para Fox e Golf.
A indústria automobilística planeja produção recorde de 2,7 milhões de veículos este ano. Segundo o presidente da associação de fabricantes (Anfavea), Rogelio Golfarb, juntas, as montadoras têm capacidade para 3,2 milhões de veículos. 'Embora algumas empresas estejam no limite, ainda há capacidade ociosa a ser usada.'
A Fiat contratou 1.200 funcionários para o novo turno, ampliando seu quadro para 10.200 pessoas. A produção passou de 2.200 para 2.500 carros/dia. A ação desencadeou aumento de mão-de-obra nos fornecedores e prestadores de serviços. Para a fábrica, foram abertas 700 vagas nas áreas de motor, limpeza, logística e manutenção, e restaurante.
Na madrugada, a linha de montagem da família Palio funciona a todo vapor. A única diferença é a ausência da claridade externa e o reforço na iluminação artificial. ¿É como montar uma fábrica nova, com a mesma infra-estrutura que funciona durante o dia, como restaurante, hospital e transporte¿, diz o responsável por Recursos Humanos, Caio Neves Duarte.
Entre 3 e 4 horas, os líderes de setor interrompem a produção e mandam servir lanches e café. Na maior parte do tempo o ritmo de trabalho é tão intenso que nem dá tempo de sentir sono, diz Max Aidano de Souza, de 28 anos. 'O mais difícil é a compreensão da namorada', brinca. O controle de qualidade garante que os carros feitos de madrugada tenham as mesmas características daqueles fabricados durante o dia.
O presidente da Fiat, Cledorvino Belini, diz que o custo para o terceiro turno é alto, mas compensa. Os salários têm adicional noturno de 30%, e é preciso montar logística até para o recebimento de material. Caminhões com componentes chegam e partem a noite toda para entregas just-in-time.
Das quatro maiores montadoras, só a Fiat tem apenas uma fábrica. A Volks tem três (em São Bernardo, Taubaté e em São José dos Pinhais), assim como a General Motors (em São Caetano, São José dos Campos e Gravataí). A Ford tem duas (São Bernardo e Camaçari).
Construir outra fábrica está fora dos planos da Fiat. 'Usamos um terço da capacidade do terceiro turno.' Além disso, a alternativa mais viável, se necessário, será reativar a fábrica da Argentina. Belini prevê aumento de 13% no mercado total este ano. A Fiat deve repetir 2006 e crescer 15%. 'Nesse ritmo, a produção de 2.500 veículos ao dia será suficiente.'
Fornecedores também ampliam jornada. A Engemet, de São Paulo, conquistou novo contrato de fornecimento de peças de motor e câmbio para a Volks e abrirá terceiro turno em março. O quadro passará para 150 funcionários, 40% a mais que o atual. É a primeira vez, em 35 anos, 'que as máquinas não serão desligadas à noite', conta o diretor Denédio Campos. A fabricante de rolamentos SKF opera com quatro equipes que se revezam de 6 às 18 horas e das 18 às 6 horas. Cada dois grupos trabalham dois dias e descansam dois. 'Operamos a semana toda e conseguimos produção 23% superior a uma escala de três turnos que pára aos domingos', diz o diretor industrial Amadeo Cumin.
A Saint-Gobain Sekurit já opera em três turnos na fábrica de vidros em Mauá (SP) e projeta aumento de 5% na produção de veículos. Se crescer mais, 'precisaremos de novas instalações', avisa Renato Holzteim, presidente da empresa.