Título: Havana, uma cidade em ruínas
Autor:
Fonte: O Estado de São Paulo, 14/02/2007, Espaço Aberto, p. A2

Os analistas que se ocupam do futuro político cubano, prevendo formas de governo para o país, utilizam em suas comparações diversas transições políticas e contam para suas cabalas com um ou outro modelo aproximado (quase sempre, é certo, para ressaltar o que é específico de Cuba).

Mas não existe modelo possível para quem imagina a cidade que se erguerá no lugar onde hoje está situada Havana. Pois é difícil encontrar outro caso de centro urbano que, sem ter sido abandonado por seus habitantes, tenha permanecido por meio século paralisado em termos de construção.

Para encontrar exemplos próximos da Havana atual é necessário recorrer aos arquivos de guerra, remeter-se a paisagens bombardeadas. Mesmo sem ter sofrido nenhuma batalha, a capital cubana é comparável a uma cidade bombardeada. Mas um bombardeio é apenas um episódio (refiro-me às baixas arquitetônicas, não humanas), do qual as pessoas saem empenhadas em retomar a vida do ponto em que foi interrompida pela aviação inimiga. Já um ataque de baixa intensidade ao longo de décadas acaba tendo efeitos muito mais devastadores, pois consegue apagar nas pessoas qualquer esperança de recuperação - ninguém tira a cabeça do refúgio e apenas corvos e mais corvos são enviados para fora da arca, em missão de exploração.

O governo de Fidel Castro tem sido esse bombardeio incessante. Uma olhada na 'Maquete de Havana', modelo aberto ao público, nos permite constatar quão pouco ali foi construído desde 1959. Com as épocas de construção assinaladas por diferentes cores, a cor revolucionária mal é perceptível. Havana é uma cidade erguida principalmente nas primeiras seis décadas do século 20. E basta percorrê-la para perceber o grau de decrepitude a que chegou a arquitetura dessas décadas.

Vários especialistas recorreram à expressão 'estática milagrosa' para explicar a persistência de edificações que, segundo as mais elementares leis da Física, deveriam ter desmoronado há muito tempo, mas continuam obstinadamente em pé.

Havana, em grande parte, existe por milagre. Até mesmo as estatísticas oficiais, melindrosas como são, reconhecem a magnitude do desastre: um informe governamental de setembro de 2005 avisa que 52,5% das construções do país se encontram em mau estado.

O pior do urbanismo revolucionário não foi ignorar a necessidade de moradias, nem mesmo refrear todo impulso de novas construções. Ele fomentou algo ainda mais perverso: a idéia, infundida na população, de que nada que esteja deteriorado pode ser restaurado (à exceção do catalogado pela Unesco, o mesopotâmico havanês), a certeza de que cada fenda é a rachadura que atravessa a fachada da Mansão Usher e termina por afundá-la num lago.

Como sempre, quem leva a culpa é o embargo americano. Cuba, dizem-nos, é um país muito pobre. Cabe, então, perguntar o que foi feito pelas cidades enquanto duraram as copiosas subvenções soviéticas. E não é descabida a suspeita de que as mesmas lideranças que empreenderam com sucesso campanhas militares, educativas e sanitárias tenham decidido pela destruição de Havana e outras cidades. Qualquer que seja a desculpa para tal descaso, contudo, não há dúvida de que o período revolucionário deixa uma capital em ruínas, irrecuperável na maior parte.

Elas só se podem orgulhar de um único impulso construtivo: a restauração de Havana Velha, a cargo do Escritório do Historiador da Cidade. Essa empresa, no entanto, acabou confundindo conservação com despovoamento e ali, onde encontra casarões habitados por muitas famílias, concebe espaços vazios, museus no lugar de lares, locações para filmes de época (na maioria dos casos, os antigos inquilinos são obrigados a morar em edifícios nos subúrbios).

O chamado Plano Mestre para a Revitalização Integral de Havana Velha impõe o simbólico e monumental à custa do habitável e é capaz de justificar a construção, diante do porto havanês, de um jardim dedicado a Diana de Gales, outro em memória de Teresa de Calcutá, uma catedral ortodoxa grega, um Museu do Rum e uma catedral ortodoxa russa ainda por terminar.

Enquanto mais de metade dos cubanos vive em submoradias, a equipe de especialistas dirigida por Eusebio Leal Spengler, historiador da cidade, se distrai em templos sem paroquianos ou memoriais de princesas e religiosas que não tiveram nenhuma relação com Havana.

Eles tentam reproduzir o campanário da primeira universidade havanesa e o que erguem é uma torre parecida com o Campanário de São Marcos no Hotel Venetian, de Las Vegas. Jardins para princesas, campanários acessórios, catedrais exóticas, museus do álcool: se tudo isso é obra de quem deveria brindar Havana com propostas revigorantes, imagine-se o que poderá vir de empresas muito menos comprometidas com o ordenamento da cidade.

Duvido que um governo revolucionário (comandado por quem quer que seja) faça a capital cubana renascer. Para isso o período iniciado em 1959 terá de ser encerrado. A cidade contará então com o vazio deixado pelos velhos edifícios em estática milagrosa. Haverá tanto espaço livre quanto o encontrado pelo Marquês de Pombal depois do terremoto de Lisboa, em 1755.

Havana estará exposta à depredação imobiliária e possivelmente novos exemplos serão agregados à lista de atrocidades urbanísticas (antecipo esta forma de preocupação: às estranhas catedrais e aos jardins em frente ao porto poderá somar-se uma fileira de arranha-céus aprisionando a avenida beira-mar e sufocando as ruas de dentro).

Quando eu penso no futuro, imagino a dificuldade de se redesenhar uma cidade que passou meio século sem ser construída diariamente. Penso também na oportunidade única que há de ser para aqueles que têm por ofício planejar cidades. Como nenhuma outra, Havana está por ser inventada.