Título: Na TV, Bush diz ao pai: 'Estou indo bem'
Autor: Rutenberg, Jim
Fonte: O Estado de São Paulo, 18/02/2007, Internacional, p. A14
Foi um momento de sentimentalismo público que quase nem parecia coisa dos Bushes. Falando na C-Span (rede de televisão a cabo que cobre assuntos do governo) na segunda-feira, o presidente George W. Bush disse sobre seu pai: 'Estou realmente mais preocupado com ele do que já estive em toda minha vida, porque ele está dando atenção demais aos noticiários.' E prosseguiu: 'Entendo como é difícil para uma pessoa que ama alguém vê-la no processo político e sendo alvo de críticas. Minha resposta a ele é, 'Olhe, não ligue para isso. Estou indo muito bem'.' Seus comentários foram uma rara janela para uma complicada relação de pai e filho que tem sido fonte de grande fascínio em Washington e promete continuar fascinando os historiadores futuros. Bush tem falado muitas vezes com orgulho de seu pai, e em 2002 chegou a defender a invasão do Iraque dizendo, certa vez, sobre Saddam Hussein: 'Afinal, esse é o cara que tentou matar meu pai.' Mas Bush, que é mais comparado a sua mãe enérgica do que a seu pai mais sentimental, às vezes pareceu conduzir seu governo com base no que ele e seus assessores vêem como erros de seu pai. Bush se referiu regularmente à promessa quebrada do pai de não criar novos impostos quando enfatizou que ele próprio não tinha planos para mudar de curso sobre impostos; seus assessores falaram muitas vezes sobre o que vêem como o erro de seu pai em não depor Saddam na primeira Guerra do Golfo. Sua crítica à política americana anterior para o Oriente Médio de buscar 'estabilidade' à custa da democracia foi freqüentemente tomada como uma censura parcial ao pai. A tensão entre seus campos pareceu especialmente grande nos últimos meses, com alguns assessores e aliados políticos de Bush escarnecendo da abordagem para o Iraque sugerida em parte por James Baker, um velho aliado de seu pai. Baker foi co-presidente do Grupo de Estudos para o Iraque e é considerado uma espécie de emissário das pessoas ligadas à presidência de Bush pai. Mas surgem novos sinais de que George W. Bush, que um dia precisou estabelecer uma identidade política distinta da de seu pai, parece mais disposto agora a abraçar o legado político de Bush pai. Solicitado pela C-Span a nomear presidentes que o inspiram, Bush, que com freqüência citou Harry Truman e Abraham Lincoln, disse: 'Bem, o primeiro de todos é o óbvio e este seria meu pai.' Solicitado a dizer os nomes dos presidentes mais subestimados, ele de novo nomeou o pai, dizendo: 'Ele sucedeu ao presidente (Ronald) Reagan, que foi um presidente de fato tão forte que as pessoas ainda não atentaram direito para meu pai.' Nunca ficou claro quantos conselhos Bush recebe, de fato, do pai, ou com que freqüência eles trocam idéias. Mas os dois compartilham a experiência de intenso escrutínio e críticas que somente um presidente pode conhecer. O ex-presidente já falou sobre isso. Em entrevista a Larry King na CNN, em outubro, Bush pai, de 82 anos, disse que agora deu de gritar com a televisão quando os críticos de seu filho se manifestam, embora, admita: 'Isso não ajuda.' 'Com alguns críticos previsíveis, eu fico lá sentado e respondo para a TV', disse Bush. 'Olhe aí esse sujeito estúpido de novo dizendo coisas feias sobre o meu filho.' Rich Bond, um ex-chefe de Estado-Maior do ex-presidente, disse que a preocupação mais manifestada de Bush pai com seu filho resulta de 'uma combinação de coração grande, idade e a cobertura inacreditavelmente ruim que George (o presidente) está recebendo.' Durante um fórum de líderes políticos realizado por seu filho Jeb nos últimos dias como governador da Flórida, em dezembro, Bush pai soluçou ao lembrar a campanha fracassada do filho para governador em 1994, dizendo: 'A verdadeira medida de um homem é como ele lida com a vitória e como ele lida com a derrota.' Peggy Noonan, responsável por vários discursos de Ronald Reagan e Bush pai, escreveu em The Wall Street Journal, 'Ninguém que conheça George H. W. Bush pode achar que aquele momento dizia respeito apenas a Jeb.' Em vez disso, afirmou ela, 'seria mais provável que ele estivesse falando sobre várias outras coisas, e sobre o outro filho.'