Título: Nível de reservas gera polêmica
Autor: Freire, Gustavo
Fonte: O Estado de São Paulo, 18/02/2007, Economia, p. B6
Apesar de próximas do nível inédito de US$ 100 bilhões, as reservas internacionais do Brasil ainda se encontram abaixo dos níveis mantidos por países emergentes como Coréia do Sul, Rússia, Taiwan, Tailândia e Venezuela. Nessas nações, as reservas variam entre um mínimo de 19,44% (Venezuela) e um máximo de 72,5% (Taiwan) do Produto Interno Bruto (PIB).
No final do ano passado, as reservas administradas pelo Banco Central (BC) correspondiam a apenas 9,09% do PIB. Situação melhor apenas que a da África do Sul (7,7%) e a do México (8,01%). 'Por esse critério, nossas reservas ainda são baixas', comentou uma fonte da área econômica do governo.
Mesmo sem precisar qual seria o nível ideal, o ex-diretor de Assuntos Internacionais do BC Alexandre Schwartsman acredita que as reservas brasileiras deveriam ficar acima dos 10% do PIB, recomendados em estudo publicado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) em outubro do ano passado. 'Ainda temos espaço para a elevação das reservas', afirmou o hoje economista-chefe para a América Latina do ABN Amro.
Para Schwartsman, o esforço de melhoria da estrutura da dívida pública, a queda dos custos de carregamento das reservas e o grau intermediário de eficiência da política monetária no Brasil justificam a manutenção das reservas acima dos 10% do PIB. 'Apesar de ainda alto, o custo de carregamento das reservas caiu de 16% em setembro de 2005 para cerca de 8%. Diria que o preço do seguro hoje está bem menos caro', disse.
O chamado custo de carregamento é determinado pela diferença entre o que o País ganha com a aplicação das reservas no exterior e o custo dos títulos emitidos pelo governo para financiar a compra dos dólares ou controlar a liquidez causada por essas compras. Atualmente, as reservas são remuneradas por uma taxa equivalente aos juros americanos, de 5,25% ao ano. Os títulos emitidos pelo governo pagam 13% ao ano.
A opinião de Schwartsman, entretanto, não é consensual. 'Manter as reservas muito acima dos 10% do PIB não seria aconselhável', disse Guilherme Loureiro, economista da Tendências Consultoria. Os custos de manutenção de reservas muito elevadas, segundo Loureiro, anulariam os benefícios da melhora do grau de solvência do País e a redução do risco Brasil. 'O ideal seria termos reservas em níveis não superiores a US$ 109 bilhões', disse. Calculados com base no estudo do FMI, os US$ 109 bilhões seriam suficientes para o País suportar uma crise de financiamento externo de quatro anos.
Preocupado com o custos de carregamento de reservas elevadas, o economista do Banco Modal, Alexandre Póvoa, lembra que os países que têm reservas mais altas que as do Brasil convivem com taxas de juros mais baixas. Trabalham, portanto, com custos menores de carregamento.
'A Rússia (30,2% do PIB em reservas) tem juros nominais de 10% e taxa real inferior aos 2,5% ao ano', disse. O mesmo pode ser verificado, de acordo com Póvoa, nos casos da Coréia (27,07% do PIB) e Taiwan (72,25%). 'Nesses países, os juros ficam entre 4% e 4,5%, menores que os 5,25% dos Estados Unidos', observou.
No caso do Brasil, a taxa de juros poderá ficar cerca de 7% acima da americana. 'Com reservas de US$ 100 bilhões, estamos falando de um custo de carregamento de cerca de US$ 7 bilhões. Isso é algo como 0,75% do PIB', disse. Apesar das críticas, ele reconhece a importância do trabalho de recomposição da reservas feito pelo BC nos últimos três anos. 'Isso nos ajudou a construir um país melhor', afirmou.
Partilhando das mesmas preocupações, o economista Bráulio Borges, da LCA Consultores, aconselha o governo a seguir as recomendações de Lawrence Summers, ex-secretário do Tesouro dos Estados Unidos, e passasse a aplicar o excesso de reservas em projetos de infra-estrutura. 'Os projetos de infra-estrutura têm taxas de retorno mais altas que os juros dos Estados Unidos', disse. A Venezuela, segundo Borges, já investe parte das reservas em infra-estrutura.
A compra sistemática de dólares, aumentando as reservas, vem sendo adotada pelo BC para tentar estabilizar o câmbio e evitar a valorização excessiva do real, que prejudica setores exportadores e expõe a indústria nacional à concorrência externa. Mas os dois economistas concordam que a melhor saída para ajustar o câmbio seria reduzir os juros internos e aumentar o grau de abertura da economia para permitir mais importações. 'Apenas a revisão da decisão do governo de elevar a Cofins sobre as importações de 8% para 15% já daria uma grande ajuda', disse o economista.
Para Borges, foi após a decisão de aumentar a Cofins que os resultados da balança comercial começaram a vir acima do esperado. Para muitos economistas, a valorização do real vem sendo provocada, em grande parte, pelo aumento das exportações. Na opinião de Póvoa, o BC já teria condições de acelerar a redução dos juros, pois não precisa mais manter taxas tão altas para controlar a inflação. 'Estamos com a inflação controlada. A inércia foi finalmente quebrada.' Nas últimas pesquisas de mercado, as projeções de inflação para este ano já estavam abaixo dos 4%.